Versos & Acordes, o portal da música e da literatura

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CIRANDA

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Autoria: Sylvia Regina Marin

Pela janela do apartamento de meus pais, observo as crianças lá embaixo, na pracinha, a brincar e correr. As menores ficam perto das avós ou das babás (sim – as mães modernas não têm tempo para essas coisas). As mais velhas sobem no escorrega, andam na gangorra, vão para o balanço, tudo em velocidade digna de um rali. Quanta energia, santo Deus!


Venho somente uma vez por ano a São Paulo, para rever os parentes, e é nessas ocasiões que dedico umas horinhas para observar o movimento dessa praça. A vida aqui é bem diferente da pequena cidade onde moro, no sul da Itália. Mas as crianças... – coisa fantástica! – têm as mesmas reações, brincam da mesma forma, testam a autoridade dos adultos do mesmo jeito. Um grupo de meninas se junta agora e faz uma roda. Elas devem ter entre cinco e seis anos – que fofas! – e começam a cantar:

Ciranda, cirandinha

Vamos todos cirandar...

Fico admirada de ver como Alice cresceu. Rafaela engordou muito. Será que a mãe não percebe que ela pode ficar obesa quando for adulta? Já Luísa está bem magrinha. Talvez tenha estado doente, quem sabe? Aquela lourinha eu não conheço – deve ter-se mudado este ano para o condomínio. Olha como a Nina está bonita... Já não tem mais aquele rostinho de bebê. E Maria Clara, hein? Continua a se vestir como um menino (sua mãe diz que ela adora imitar o pai em tudo). Sinto falta de Bela, a mais engraçada de todas. É geralmente a primeira a quem procuro com os olhos.

- Mãe, a Belinha ainda mora aqui no prédio? Não a vi desde que cheguei.

Mamãe hesita. Seu olhar fica triste e, por um momento, me parece que ela vai desfalecer. Corro, aflita, sem entender o que está acontecendo. Talvez a menina tenha contraído alguma doença grave ou... Não, tento tirar pensamentos mórbidos da cabeça. Mas a agonia dentro do peito continua.

É Jurema, a empregada, quem me dá a notícia que minha mãe não consegue articular.

- Mas a senhora não soube da tragédia? A menina foi jogada pela janela pelo próprio pai e se estatelou lá embaixo. É a encarnação do demônio aquele homem. Tinha sangue em tudo que era lugar. A madrasta...

- Chega, chega, Jurema, pelo amor de Deus! Não quero ouvir mais nada!

Agora sou eu que vejo tudo girar. Sento no sofá e seguro as mãos de mamãe. Choramos as duas por uns instantes. Perco a consciência do meu próprio corpo e me recuso a aceitar o que acabei de ouvir. Tudo que me vem à mente são os profundos olhos castanhos, a pele corada, o riso contagiante, os cabelos ao vento de uma menina de cinco anos cujo nome nem ao menos sei. O apelido "Bela" seria de Anabela, Florisbela? Talvez fosse Isabela... Mas isso já não importa mais.

A ciranda na praça continua. A vida segue em frente. Teremos novos motivos para rir, chorar, beber, dançar, lamentar. Vamos cair e nos erguer de novo.

Será que conseguiremos esquecer que um dia Bela existiu, e que lhe foi tirado, de forma trágica, o bem mais precioso que ela possuía? Não sei. Só o tempo dirá.

Maio de 2008