Autoria: Rogério Gurgel
Há muitos anos, aproximei-me dele para esclarecer minha dúvida sobre um versículo de Ssão Paulo, no qual o apóstolo menciona o final dos tempos como algo iminente. Sob a penumbra da nave da catedral, o homem baixo e calvo olhou-me por alguns segundos, deixando surgir, acima do cavanhaque, um sorriso enigmático, talvez medindo minha capacidade de compreensão, e por fim me presenteou com uma explicação clara, concisa e, o principal, transparente; uma aula de exegese bíblica, da qual o pensamento de Paulo emergiu com suas idéias impregnadas de escatologia – que o tempo provou estarem erradas.
Tal honestidade intelectual, demonstrada ao não hesitar em negar-se a adequar o texto paulino a objetivos pastorais ou doutrinários, prática comum à maioria dos padres e pastores, foi somente uma das manifestações daquela lucidez intelectual marcada pela austeridade e pela inesperada e surpreendente independência, uma autonomia que jamais o filiou a esta ou aquela corrente.
De fato, ele sempre fez o que considerava certo. Sempre preferiu a atitude por meio da qual a coerência emergisse como o resultado de uma complexa equação, em que ele parecia ponderar sobre três aspectos: a base filosófica do seu raciocínio – agostiniana, em minha opinião –, as conseqüências do seu ato e a experiência intransitiva da fé. E a decisão nascida desse somatório de fatores não buscava apenas salvaguardar uma suposta verdade religiosa, da qual o catolicismo seria o único guardião, mas, principalmente, tornar as pessoas melhores e promover entre elas – para usar uma palavra que ele utilizava incansavelmente – a “koinonia”, ou seja, uma comunhão aprofundada, visceral.
Pessoalmente, considero que a mensagem mais empolgante do texto evangélico, a única que ainda me atrai, é a de que o amor está acima da lei – e foi exatamente esse o sentido que Hamilton Bianchi deu à sua vida. As regras frias jamais submeteram aquele caráter que reunia fina sensibilidade estética, profundo conhecimento teologal, domínio de várias línguas, finíssima ironia e apego apaixonado ao cerne do Evangelho: fazer da vida uma jornada em direção ao próximo.
Vejo-o saindo pela porta dos fundos da matriz, parando alguns passos antes de descer a escada na direção da casa paroquial para acender o cigarro; ou à tarde, debruçado na mesa da biblioteca, ouvindo Mozart e pintando uma estola; ou de olhos fechados durante a homilia, deixando a voz sóbria enfatizar certo ponto primordial...
Na década de 1960, durante a histórica greve da Perus, parte dela ocorrida nos anos iniciais da ditadura, Hamilton – à época, pároco em Cajamar – não temeu expor-se sem quaisquer limites, apoiando o movimento e ousando, naquele período sombrio, contrapor-se ao Estado e ao capital. É certo que as decepções vieram, pois a política será sempre a filha primogênita da mesquinhez, mas Hamilton jamais se furtaria a obedecer sua própria coerência, impregnada de idealismo apostólico e de uma compreensão viva da mensagem evangélica, tão viva que o aproximou da tradição profética.
Inúmeros opositores do golpe militar puderam se esconder da repressão, aguardar uma rota de fuga em relativa segurança e sobreviver graças ao apoio de Hamilton. E todos os que partilharam de sua amizade, ou puderam ouvi-lo em suas homilias, talvez tenham a certeza de que a fé é uma experiência para ser vivida muito além de certa santimônia católica, tão em voga nos dias de hoje.
É estranho, contudo, que tal homem não tenha recebido o bispado. O dossiê de Hamilton certamente repousa esquecido em algum escaninho da cúria romana, deixado ali, por engano, na véspera de uma data festiva, quando a atenção do funcionário encarregado de avaliar o processo concentrou-se unicamente no brilho de uma nova alfaia papal.
(Crônica publicada na edição de 17 de março de 2006 do jornal Bom Dia Jundiaí.)
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