Houve um tempo - já vai longe
Em que se comprava fiado
Mas a vida não valia
Nem dez réis de mel coado.
Havia seca, flores murchas,
Nenhum pasto para o gado.
Os senhores de engenho e seus peões
Também cortavam um dobrado.
Cangaceiros, por toda parte,
Enchiam de sangue o cerrado
E as meninas se escondiam
Pra não cometer pecado.
As crianças barrigudas,
Cheias de vermes, ventre estufado,
Não tinham brinquedos nem pipas
Quando muito, um velho machado.
Eu vi tudo com estes olhos
Que a terra há de ver enterrados
Pois fui criança, coronel e bandido
Lutei de todos os lados.
Um amuleto, entretanto,
Por minha mãe me foi dado
Para eu ter sorte na vida
E não morrer baleado.
Se sobrevivi à tristeza
De meu sofrido passado
É porque guardo comigo até hoje
Meus dez réis de mel coado.
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