A última ceia, João Jacinto

Quero parar com esta roda-da-fortuna,
que me é tão lenta, num ranger de pesada.
Quero viver na simplicidade de uma história
abundante de afectos não forçados, sem dor,
com as fadas da minha memória,
num lugar longínquo de tempo,
onde possa inspirar a refrescante brisa
e descansar num lençol de areia,
ao som dos beijos das ondas,
perfumado de azul e algas,
numa tarde de final feliz.
Sem ter no medo
a passagem ao relento,
sob o breu de uma noite
despida de estrelas e luar,
para o infinito e iluminado dia.
Não sou o principal,
mas o duplo de confundíveis identidades,
de comportamentos e argumentos,
falidos de diálogos,
nas cores nítidas da vida,
de cenários paradisíacos,
em desejos e sonhos idealizados...
No descontentamento de mim,
contraceno em esquerda alta,
com o abandono austero do interesse
e acabo esmagado por uma plateia
de amadores expectantes.
Ainda presa, no palco dos reinantes,
ofegantemente respiro por um fio,
faltando-me a navalha da coragem...

Caia o pano,
que finde de vez esta última ceia.

joão jacinto

in blogue de poesia;
http://joaojacintopoemas.blogspot.com
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