Rimas fáceis e flácidas

Pesquisa de editor, roqueiro e estudante de jornalismo expõe incidência dos lugares-comuns nas músicas mais tocadas, e os clichês mais batidos - Jotabê Medeiros

Para que rimar amor e dor?, pergunta Caetano Veloso na letra de Mora na Filosofia, de 1972.

Essa pergunta, isoladamente, poderia ser respondida de diversas maneiras: por preguiça, por falta de vergonha na cara, por vício, pela exigência mediana do leitor ou ouvinte (ademais, a rima é pobre, mas a relação existencial entre amor e dor é inevitável). Mas o jornalista Gustavo Bolognani Martins, de 24 anos, editor da versão online da revista Bizz e roqueiro da banda Ecos Falsos, achou insuficientes todas as explicações empíricas a respeito dos lugares-comuns nas rimas da Música Popular Brasileira. E decidiu: iria a campo para demonstrar a coisa de forma mais acurada - o resultado de sua pesquisa, que abrange a produção mais popular no período entre 2001 e 2005, será a tese que apresentará na conclusão de seu curso de jornalismo na ECA-USP, este mês.

Para chegar aos resultados do estudo É o Amor - Lugares-Comuns na Música Brasileira por Suas Rimas, Gustavo saiu a campo orientado por Luis Tatit, Ivan Teixeira, Claudio Tognolli e outros professores, e foi entrevistando gente: Rogério Flausino, do Jota Quest; Supla; Tony Bellotto, dos Titãs; o historiador Elias Thomé Saliba; o radialista Fernando Gasparetto; entre outros (e até este repórter). Sua pesquisa, além das conclusões inéditas, merece crédito por revelar o terreno movediço que é o mercado nacional, sem dados confiáveis, cheio de instituições de pouca seriedade, entre outros problemas.

Martins rejeitou, como amostragem, os indicativos de vendas de discos das gravadoras por considerá-los desacreditados. Em outubro de 2006, a matriz inglesa da gravadora EMI demitiu seus executivos no Brasil após descobrir que sua filial brasileira tinha inflado artificialmente as vendas de discos, inventado lucro de cerca de R$ 48 milhões. Ele preferiu o índice da empresa de consultoria americana Crowley Broadcast Analysis, que serve de base para a arrecadação de direitos autorais no País.

O pesquisador contabilizou 3.073 rimas que estiveram presentes nas 100 músicas mais executadas entre 2001 e 2005, e chegou aos 11 pares de palavras mais batidas. "Assim" e "Mim" apareceram em primeiro lugar, com 58 ocorrências - ou seja, a cada 50 rimas, uma teria esse encontro. "A chance é de que, grosso modo, uma em cada 8 músicas populares em português se valha dessa rima", afirma.

Depois, seguem-se "Coração" e "Paixão" ("Coração"/ "Solidão" vem em 6º lugar, com 18 incidências; em 11º lugar, "Coração"/ "Mão"). "Mas o mais patente vício combinatório parece ser o das palavras sorriso/paraíso. Todas as ocorrências da palavra 'paraíso' foram rimadas dessa forma, sempre com 'sorriso' como termo A e 'paraíso' como termo B", diz.

São 220 as palavras que mais se repetem na MPB recente, encabeçadas pelas seguintes: você, coração, amor, assim, mim, paixão, amar, dizer, esquecer, ver, olhar. "Tida popularmente como a mais simplória de todas as rimas, amor/dor foi a oitava coincidência mais utilizada pelos compositores analisados, dando algum respaldo ao senso comum."

Inicialmente, Gustavo achava que o máximo da pobreza que encontraria pela frente seria o manancial de rimas no infinitivo ("chorar" com "amar"), mas estava enganado. "Não há qualquer par de verbos que se destaque dos demais em termos de recorrência", concluiu. Nenhuma rima infinitiva repetiu-se mais do que quatro vezes, apesar dos exemplos mais gritantes. Por exemplo: Maimbê Dandá, de Carlinhos Brown, sucesso absoluto de Daniela Mercury no carnaval de 2005, estava infestada de verbos no infinitivo: das 11 rimas, cinco eram formadas pelo recurso.

As rimas de natureza sentimental ocuparam 87% das canções analisadas, enquanto os temas classificados como "sexuais" só ocuparam as letras em 1,98% da amostragem (com o funk carioca na comissão de frente).

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Jornal O Estado de São Paulo

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