E A NAVE VAI...

Por Antonio Siqueira

Há 28 anos na estrada, 14 títulos e inúmeras coletâneas lançadas (todas no catálogo fonográfico nacional, menos o disco Sete de 1987), o grupo mineiro 14 BIS lançou há algumas semanas, o seu primeiro CD/DVD 14 BIS ao Vivo/Sony Music.

Gravado no excelente Palácio das Artes de Belo Horizonte na antevéspera do Natal de 2006, produzido pelo ótimo Marcelo Sussekind e co-produzido por Cláudio Venturini, 14 BIS ao vivo é, em maior parte de seu conteúdo, uma saborosa seqüência de canções antigas e alguns sucessos recentes do ultimo CD homônimo Outros Planos. Estão registrados antigos sucessos como Bola de Meia, Bola de Gude, Caçador de Mim (com Beto Guedes), Mesmo de Brincadeira (com Marcus Viana), Natural, Todo Azul do Mar, entre outras melodias maravilhosas que consagraram Cláudio Venturini, Vermelho, Sergio Magrão, Hely Rodrigues e, outrora, Flavio Venturini que há 18 anos dedica-se exclusivamente à sua bem sucedida carreira solo. Flávio despediu-se do grupo em 1988, num memorável show neste mesmo Palácio das Artes onde foi gravado o DVD. Este show que marcou a despedida de Flavio, também gerou um ótimo disco ao vivo que encerrou o ciclo do compositor no, agora, quarteto, com chave de ouro.

O show é aberto com um dos temas instrumentais mais belos do Rock Progressivo mundial. 14BIS – Instrumentais I & II tem o seu primeiro registro no LP 14 Bis II de 1980 (o disco da escada). O primeiro tema instrumental é de autoria de Flávio Venturini. Um piano suave e “viajante”, capitaneado pelo primoroso Sergio Vasconcelos (o 5° Bis no coração dos admiradores da banda), com acompanhamento e detalhes de Órgão Farfisa, especialidade do Maestro Vermelho, enriquecendo ainda mais o ambiente. Com suas influencias advindas da Musica Clássica, do Barroco, do Renascentismo e de toda uma gama formadora admirável, sem negar as raízes profundas com o bom e velho rock’n roll. Na seqüência do “instrumental I”, brilha a estrela de Luis Cláudio Venturini, que mostra por que é um dos melhores guitarristas do Brasil (se nascesse em Londres, seria, reconhecidamente, um dos melhores do mundo) há quase 30 anos. Na gravação original de 1980, Cláudio usa um Ovation nylon para a segunda parte da introdução, para depois soltar a mão num solo de guitarra que tornou-se épico. Marcus Viana faz da sua participação especialíssima, um novo marco na discografia da banda. Este violinista e melodista fantástico bem quando o assunto é musica para “assombrar” os mais sensitivos e encantar ouvidos que tem a plena consciência de que se localizam bem pertinho do cérebro. O que vem depois no tema II é um show de virtuosismo e talento. Cada um na sua, porem seguindo a mesma partitura. Uma “quebradeira” genial, concebida por todo o grupo. A bateria de Hely Rodrigues, que em qualquer espaço que o 14 BIS se apresente, toca como se fosse o primeiro show de sua vida, revela um dos grandes segredos para a longevidade da instituição; o prazer de querer fazer sempre bem feito. Hely toca com amor e tesão incomparáveis.

14 BIS

Um dos pontos que sempre destacaram o 14 Bis é o vocal elaborado. Desde os primórdios da humanidade, quando um ser primitivo ergue-se definitivamente de suas quatro patas, alcançando assim o epíteto de Homem, organizando-se e sociedades tribais e clãs para, assim, produzir seus próprios recursos e sustento de suas proles, houve uma necessidade instintiva e coletiva de manifestação do humano. Algo visceral que transcendia de um sentimento único, de um desejo de identificação, de um estimulo a mais para a lida do dia a dia, o Canto de Trabalho. Umas das manifestações mais antigas da humanidade: Cantar! E o 14 BIS canta, e canta lindo. Canções de Guerra traduz nos versos simples do bom Chico Amaral essa amalgama esquecida. Da safra de musicas compostas depois da Era Flávio, essa bela canção de Sergio Vasconcelos, Cláudio e Chico Amaral remonta este Estado de Espírito: “Ali na direção da serra as luzes de uma aldeia vão”,
Trazer um pouco de conforto a toda solidão.
Pessoas passam calejadas em alma e músculo,
“Perguntas muitas sobre nada”. “O Canto de Guerra, O Canto Tribal, como nos tempos áureos de Ponta de Esperança, Retrato na Praça, Além Paraíso”, Dança do Tempo, Adoráveis Criaturas e Nova Idade Média.

Musicas como Sonhando o Futuro (composição de Cláudio em ótima parceria com Lô Borges) Bola de Meia, Bola de Gude, presentão de Bituca (Milton Nascimento que ajudou a catapultar o grupo no cenário nacional), Todo Azul do Mar, perola de Flavio e Ronaldo Bastos, levaram o publico ao delírio. Simples e perfeitos estiveram em Canção da América. Esta foi gravada originalmente no primeiro disco da banda, em 1979. O 14 BIS I teve direção artística de ninguém mais que o próprio Milton Nascimento. Em parceria com Fernando Brant, Milton compôs este hino à utopia e às seqüelas causadas pelas Revoluções Políticas Latinas Americanas. Almas que se separaram, subtraídas pela crueldade anárquica do poder.

Uma boa surpresa para quem tem mais de trinta anos e sentiu na pela a grande revolução do Rock Brasil nos anos 80 é Xadrez Chinês de Vermelho, Cláudio e Chacal, um dos grandes nomes da poesia urbana carioca. “Às vezes me pego pensando”.
Igual computador
Tem dias que eu já nem sei mais
Ao menos quem eu sou
Às vezes tudo se esvai
Fios de alta tensão
Meu coração samurai
“Haraquiriza a razão.”
Não só Chacal como Tavinho Paes (meu querido amigo), os saudosos, Julio Barroso, Cazuza e Renato Russo, mostraram que no Rock Nacional daquela época, cabiam letras inteligentes e o 14 Bis usou e abusou desses recursos nessa era de ouro. O grupo mineiro sobreviveu a todas essas transições com a dignidade que o consolidou como o que há de melhor na musica pop de qualidade.

Beto Guedes emocionou o público presente. Caçador de Mim de Sergio Magrão e Luiz Carlos Sá é uma das obras-primas do cancioneiro popular. Gravada nos moldes do registro que foi feito no CD BIS Acústicos de 1999 e com os mesmos arranjos de Eduardo Souto Neto, é um dos hits do Outono/Inverno das Fms Cariocas e futuro tema de nova novela da Rede Record. Magrão compôs pouco nestes anos de estrada, porem quando o fez, manifestou uma inspiração soberba. Pequenas Coisas e Doce Loucura são outras preciosidades do Contrabaixista carioca e ex membro (juntamente com Flavio) do grupo O Terço, onde brilhou e chegou a ser considerado o melhor baixista de rock do Brasil nos anos 70. Não perdeu a pegada.

14 BIS

A Nave de Prata de Vermelho e Marcio Borges ficou perfeita e, particularmente, considero a melhor performance do quarteto, dentre todas as gravações desta bela canção. Ringo de Moraes acertou em cheio no arranjo de cordas. Também em Todo Azul do Mar, o resultado ficou sublime. A voz de Cláudio e rica em belos médios, o que facilita o ofício de arranjador. Léo Gandelman, igualmente, deixa a sua marca em Bola de Meia. Marcus Vianna em Mesmo de Brincadeira conduz o publico a uma viagem aos antigos musicais dos filmes Westerns e só não faz o seu violino falar.

Não poderia faltar Mais uma Vez, parceria inusitada de Flavio com Renato Russo (que escreveu a letra para o filho do Eduardo, o da Mônica, segundo fontes paralamicas). Cláudio contou detalhes que antecederam esta composição. Tampouco Natural, mais uma de Flavio, desta vez com Tavinho Moura. Espanhola esteve bela e sempre cai bem em qualquer ocasião.

Nas gravações de estúdio, Flavio Venturini tentou compensar a sua tão criticada ausência no palco. Alguns creditam ao caos aéreo, outros a sua agenda atribulada e eu, bastante particularmente, à incompetência e ao descaso de sua assessora, mais preocupada com os Fãs Clubes do Anjo. Mas foi bom revê-lo e matar as saudades dos inesquecíveis shows que assistimos em meados de 1984. Sempre no Circo Voador ou no finado Noites Cariocas (Pão de Açúcar). Uma Eterna Canção Rock’n Roll teve um resultado primoroso. Já Rogério Flausino do J.Quest deveria gravar Planeta Sonho no próprio J.Quest. Lá ele funciona e muito bem, podendo gritar à vontade sem perturbar a harmonia, esta ambientada para os decibéis exatos para os rapazes. Mas vá entender! Como não entendi e não faço a mínima questão de entender Ate o Dia Clarear, um forró de Flavio Venturini e Alexandre Blasifera. É um mercado curioso, esse mercado fonográfico brasileiro! Se Alexandre Blasifera é bom compositor, podemos afirmar, sem titubeio que o Presidente Lula é um grande filósofo e cita com denodo catedrático,
Aristóteles, Platão, Schopenhauer e Jean Paul Sartre, mesmo depois de umas cachaças.

Mas o sol raiou sim, no gran finale com a deliciosa Linda Juventude. Os versos Nerudianos desta canção de Flávio e Marcinho Borges foram dedicados a Milton “canta lindo” Nascimento. Ganhou roupagem nova com um tema incidental na introdução e no final, mas conservou a originalidade do belo arranjo original. Faltou o “Anjo”, mas isso é outra história.

Que Venham mais DVDs, quem sabe um Acústico MTV com uma produção à medida da grandeza deste Monstro Sagrado da Musica Popular Contemporânea Universal. Que o Hely continue tocando com aquele sorriso de menino que ganhou a primeira bateria.

Vida Longa ao 14 Bis! Tem muita estrada pela frente.

Antonio Siqueira

 

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