Proposta de trabalho (Oficina de Novos Autores – Castelinho do Flamengo): Fazer um artigo com o título “A Arte de Amar” em que se insira o seguinte elemento surpresa (sorteado): “Fraude no Carnaval 2006”.
A ARTE DE AMAR
Sylvia Regina Marin
Uma das definições da palavra “arte” transcrita do
dicionário elaborado por Antenor Nascentes para a Academia Brasileira de
Letras, é a que diz: “conjunto de preceitos para a perfeita execução
de qualquer coisa.”
É um significado pertinente, mas percebo que enveredei por um caminho difícil
e perigoso, já que, para começar, a “perfeita execução
de qualquer coisa” demanda algo parecido assim com um Nelson Freire tocando
Chopin. E, se para atingir essa perfeição, é necessário
“um conjunto de preceitos”, aí mesmo é que fiquei completamente
atrapalhada.
Quais serão os preceitos, ou normas, doutrinas e condições
que capacitam o ser humano a amar ?
Objeto de estudo e delírio de poetas, escritores, psicólogos, filósofos,
desde o início dos tempos, a arte de amar toma diferentes formas de acordo
com a abordagem personalíssima de cada “especialista”.
O poeta Ovídio, por exemplo, nascido em 43 A.C., conquistou a sociedade
romana com seus poemas, dos quais o mais conhecido foi “A Arte de Amar”,
com nada menos do que 168 páginas. Ovídio, no entanto, se dedicou
basicamente ao envolvimento sexual entre duas pessoas: não ensinou o sentimento,
mas a habilidade; não o amor, mas a sedução.
Erich Fromm, psicanalista e pensador alemão, fez um tratado em 1956 com
o mesmo título do poema de Ovídio. Confesso que não o li,
mas acredito que seja um documento contundente, tendo em vista a importância
do autor. Sem dúvida, conterá uma infinidade de preceitos. Entretanto,
partindo do princípio de que um dos conceitos de Fromm é o de que
“não é possível amarmos a nós mesmos se não
amarmos às demais pessoas”, acomete-me uma dúvida cruel: não
seria sensato pensarmos exatamente o oposto?
Para Manuel Bandeira, “se queres sentir a felicidade de amar, esquece a
tua alma; é a alma que estraga o amor.”
E o que dizer de Thiago de Mello que, sob a égide da arte de amar, define
cruamente:
“Amor não se faz
Quando muito, se desfaz
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O verbo exato é foder
A palavra fica nua
Para todo mundo ver
O corpo amante cantando
A glória do seu poder.”
Paro tudo e respiro. Ao que parece, esses grandes homens que tentaram definir
a “Arte de Amar” traziam mesmo era um grande desamor em suas almas
inquietas. Porque complicar o que deveria ser tão simples quanto um sorriso
de criança? Por favor, joguemos fora conceitos, estudos e ensaios mirabolantes.
Sabem o que nosso bom e velho Drummond dizia? “Amar se aprende amando.”
É a primeira verdade que nos vem do berço. Se a vida nos leva por
caminhos tortuosos e nos perdemos da essência do amor, sempre há
tempo de voltar a ela. A escolha é nossa. Se me fosse dado o supremo dom
da sabedoria amorosa, eu ensinaria a todos o que aprendi vivendo. Aprendi, entre
muitas coisas, que a primeira pessoa a merecer nosso amor incondicional somos
nós mesmos; que, a partir daí, o amor flui em ondas para nossos
filhos, nossos pais, nossos companheiros; vai mais além, e atinge os irmãos,
amigos, vizinhos, colegas de todo tipo (de trabalho, de oficina literária,
de ginástica); e nem é preciso muito esforço para que ele
envolva a empregada doméstica, o porteiro, o jornaleiro, o entregador da
farmácia, o pipoqueiro. E a coisa é contagiosa porque, se deixarmos
nosso coração se tomar de puro amor, não falta muito e estaremos
apaixonados pelos passarinhos que cantam na árvore em frente à nossa
casa, pelos cães e gatos da vizinhança, pelo cavalo que puxa a charrete
na pracinha do bairro aos domingos.
É o amor que me faz ficar rouca de tanto gritar quando meu time de futebol
é campeão; é ele também que me faz chorar quando o
Brasil perde a Copa. É por amor que vibro ao cantar o Hino Nacional, e
que caio em prantos ao ver minha cidade à mercê de bandidos. É
por amor que desfilo no Salgueiro todos os anos e, confesso, foi por amor que
protestei e me juntei ao grupo de pessoas que denunciou a fraude no Carnaval de
2006 (o Salgueiro não merecia ter tirado o 11º. lugar!).
Abril de 2007
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