Meus joelhos praticamente não existiam na áurea fase da infância.
É interessante falar sobre isso, pois atualmente sinto dor até com
picada de mosquito, mas durante a minha fase de moleque, subia em muro, me esfolava
todo, era mordido por marimbondo, corria sobre espinhos... sim, eu tinha um cascão
no lugar da sola do pé – e nada disso me incomodava; na verdade era
até divertido. No meio do jogo de futebol (eu jogava descalço, claro!),
aquele cascão se descolava como uma fruta madura, e eu tinha que voltar
para casa para arrancar o resto de pele ainda presa na sola do pé com uma
navalha. Achava engraçada a pele nova que nascia por baixo do cascão:
era rosinha e ardida... Tinha que ficar um dia inteiro sem botar os pés
no chão, mas quem disse que eu ligava para isso? Lá estava eu de
novo, jogando futebol descalço, chutando aquelas bolas de couro duro que
a gente esperava o ano inteiro para ganhar no natal.
Durante toda a infância, morei no Flamengo e aos dez anos eu já conhecia
o bairro melhor do que os gatos. Andava pelo Aterro do Flamengo sem direção,
sentindo o gosto do vento na boca; adorava debruçar-me sobre o corrimão
das passarelas e avistar os carros passando sob mim – isso me tornava poderoso,
me sentia o rei do trânsito. Jogava bola à tarde e corria dos moleques
malvados da rua Corrêa Dutra à noite. O pior é que nessa rua
ficavam as padarias, a sorveteria, o armazém e a banca de jornal. Qualquer
compra despropositada que a minha mãe me mandava fazer, eu encarava como
uma missão bélica: me disfarçava, corria, saltava, me fingia
de morto – tudo para não apanhar ou ser humilhado pelos garotos mais
velhos que por ali moravam.
Existia uma árvore, que descobri ser perfeita (e olha que eu pesquisei
muito). Ela ficava no Parque do Flamengo próximo ao muro que faz divisa
com os campos de futebol do Aterro. Naquela árvore, que ficava em frente
à minha rua, Ferreira Viana, resolvi estabelecer-me: levei travesseiro,
rádio de pilha, amendoim, etc. Era como se fosse a minha casa e meus amigos
morriam de inveja por eu ter descoberto primeiro aquele lugar perfeito. Eles não
tinham do que reclamar, pois eram convidados com freqüência para visitar-me
em meu solar arbóreo.
Eu não imaginava que esse negócio viraria mania entre a garotada!
Todos os moleques do bairro arranjaram uma árvore para morar e copiaram
sumariamente os meus exemplos. Logo, o Parque do Flamengo tornou-se uma favelinha,
com todas as árvores habitadas pelos filhos "sem-teto" da burguesia
carioca. Os guardas tentaram enxotar-nos em vão e após muitas reivindicações,
acabaram tolerando a nossa brincadeira. Um dia, descobri que havia cobras na minha
árvore e tive tanto medo que nunca mais voltei. Hoje sei que eram minhocas
que habitavam os sulcos do casco da árvore, mas, naquela época,
as coisas eram grandes demais para mim.
Foi uma pena, pois a minha árvore era reconhecida como "a melhor de
todo o bairro": tinha lugar para acomodação de brinquedos e
aparelhos, troncos confortáveis para tirar uma soneca e lugares bons para
se pendurar. Acho que após o aparecimento das "cobras", não
voltou a ser habitada por nenhum de nós. Fui morar em outra cidade, no
interior do Estado, e lá fiquei por três longos anos. Um dia, em
visita ao Rio, passei de ônibus pelo Aterro do Flamengo em direção
ao Museu de Arte Contemporânea em Niterói, e vi os meninos pendurados
nas árvores, seus lençóis forrando os troncos, os radinhos
de pilha e a catação de tamarindo... Deu muita saudade!
Hoje à tarde, resolvi lembrar-me do passado e fui dar uma voltinha pelo
Parque do Flamengo. Tentei visualizar os espectros dos personagens de outrora,
mas percorri toda a extensão da área de lazer com passadas largas,
e não vi nada além de balanços e campos inóspitos.
O parque parecia menor e estava tudo muito quieto. Avistei a minha árvore
no canto, próxima ao muro, e vi uma menina, de aproximadamente cinco anos,
refugiando-se do sol em sua sombra. Ela era pequena e não conseguia alcançar
o galho. Dei uma mãozinha, mas antes averigüei se não encontrava
nenhuma minhoca. Estava limpo. Dei um impulso na criança e vi seu sorriso
ao se aconchegar na minha antiga casa. Eu também sorri e me desmantelei
de emoção ao perceber que aquela menina, na verdade, era a minha
filha.
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