CASA NA ÁRVORE, João Pedro Roriz

Meus joelhos praticamente não existiam na áurea fase da infância. É interessante falar sobre isso, pois atualmente sinto dor até com picada de mosquito, mas durante a minha fase de moleque, subia em muro, me esfolava todo, era mordido por marimbondo, corria sobre espinhos... sim, eu tinha um cascão no lugar da sola do pé – e nada disso me incomodava; na verdade era até divertido. No meio do jogo de futebol (eu jogava descalço, claro!), aquele cascão se descolava como uma fruta madura, e eu tinha que voltar para casa para arrancar o resto de pele ainda presa na sola do pé com uma navalha. Achava engraçada a pele nova que nascia por baixo do cascão: era rosinha e ardida... Tinha que ficar um dia inteiro sem botar os pés no chão, mas quem disse que eu ligava para isso? Lá estava eu de novo, jogando futebol descalço, chutando aquelas bolas de couro duro que a gente esperava o ano inteiro para ganhar no natal.
Durante toda a infância, morei no Flamengo e aos dez anos eu já conhecia o bairro melhor do que os gatos. Andava pelo Aterro do Flamengo sem direção, sentindo o gosto do vento na boca; adorava debruçar-me sobre o corrimão das passarelas e avistar os carros passando sob mim – isso me tornava poderoso, me sentia o rei do trânsito. Jogava bola à tarde e corria dos moleques malvados da rua Corrêa Dutra à noite. O pior é que nessa rua ficavam as padarias, a sorveteria, o armazém e a banca de jornal. Qualquer compra despropositada que a minha mãe me mandava fazer, eu encarava como uma missão bélica: me disfarçava, corria, saltava, me fingia de morto – tudo para não apanhar ou ser humilhado pelos garotos mais velhos que por ali moravam.
Existia uma árvore, que descobri ser perfeita (e olha que eu pesquisei muito). Ela ficava no Parque do Flamengo próximo ao muro que faz divisa com os campos de futebol do Aterro. Naquela árvore, que ficava em frente à minha rua, Ferreira Viana, resolvi estabelecer-me: levei travesseiro, rádio de pilha, amendoim, etc. Era como se fosse a minha casa e meus amigos morriam de inveja por eu ter descoberto primeiro aquele lugar perfeito. Eles não tinham do que reclamar, pois eram convidados com freqüência para visitar-me em meu solar arbóreo.
Eu não imaginava que esse negócio viraria mania entre a garotada! Todos os moleques do bairro arranjaram uma árvore para morar e copiaram sumariamente os meus exemplos. Logo, o Parque do Flamengo tornou-se uma favelinha, com todas as árvores habitadas pelos filhos "sem-teto" da burguesia carioca. Os guardas tentaram enxotar-nos em vão e após muitas reivindicações, acabaram tolerando a nossa brincadeira. Um dia, descobri que havia cobras na minha árvore e tive tanto medo que nunca mais voltei. Hoje sei que eram minhocas que habitavam os sulcos do casco da árvore, mas, naquela época, as coisas eram grandes demais para mim.
Foi uma pena, pois a minha árvore era reconhecida como "a melhor de todo o bairro": tinha lugar para acomodação de brinquedos e aparelhos, troncos confortáveis para tirar uma soneca e lugares bons para se pendurar. Acho que após o aparecimento das "cobras", não voltou a ser habitada por nenhum de nós. Fui morar em outra cidade, no interior do Estado, e lá fiquei por três longos anos. Um dia, em visita ao Rio, passei de ônibus pelo Aterro do Flamengo em direção ao Museu de Arte Contemporânea em Niterói, e vi os meninos pendurados nas árvores, seus lençóis forrando os troncos, os radinhos de pilha e a catação de tamarindo... Deu muita saudade!
Hoje à tarde, resolvi lembrar-me do passado e fui dar uma voltinha pelo Parque do Flamengo. Tentei visualizar os espectros dos personagens de outrora, mas percorri toda a extensão da área de lazer com passadas largas, e não vi nada além de balanços e campos inóspitos. O parque parecia menor e estava tudo muito quieto. Avistei a minha árvore no canto, próxima ao muro, e vi uma menina, de aproximadamente cinco anos, refugiando-se do sol em sua sombra. Ela era pequena e não conseguia alcançar o galho. Dei uma mãozinha, mas antes averigüei se não encontrava nenhuma minhoca. Estava limpo. Dei um impulso na criança e vi seu sorriso ao se aconchegar na minha antiga casa. Eu também sorri e me desmantelei de emoção ao perceber que aquela menina, na verdade, era a minha filha.

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