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Novo Dicionário Aurélio:
[Do lat. chronica]
S.f. 1. Narração histórica, feita por ordem cronológica.
4. Pequeno conto, de enredo indeterminado.
Enciclopédia Encarta 2000:
Atualmente, é um gênero literário que explora qualquer assunto,
principalmente os temas do cotidiano. Geralmente escritas para serem publicadas
em jornais e revistas — que, mais tarde, podem ou não ser reunidas
em livro — a crônica se caracteriza pelo tom humorístico ou
crítico.
Klic Educação:
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Narrativa curta que geralmente tem como ponto de partida um fato real comentado
pelo autor, muitas vezes de maneira lírica ou bem-humorada. Nas últimas
décadas, no Brasil, muitos escritores notabilizaram-se por suas crônicas:
Rubem Braga, Fernando Sabino e Luís Fernando Veríssimo, entre outros.
A palavra crônica deriva do Latim chronica, que significava, no início da era cristã, o relato de acontecimentos em ordem cronológica (a narração de histórias segundo a ordem em que se sucedem no tempo). Era, portanto, um breve registro de eventos.
O cronista se alimenta dos acontecimentos diários, que constituem a base da crônica.
Após cercar-se desses acontecimentos diários, o cronista dá-lhes um toque próprio, incluindo em seu texto elementos como ficção, fantasia e criticismo, elementos que o texto essencialmente informativo não contém.
Com base nisso, pode-se dizer que a crônica situa-se entre o Jornalismo e a Literatura, e o cronista pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia-a-dia.
A crônica, na maioria dos casos, é um texto curto e narrado em primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está "dialogando" com o leitor. Isso faz com que a crônica apresente uma visão totalmente pessoal de um determinado assunto: a visão do cronista.
Ao desenvolver seu estilo e ao selecionar as palavras que utiliza em seu texto, o cronista está transmitindo ao leitor a sua visão de mundo. Ele está, na verdade, expondo a sua forma pessoal de compreender os acontecimentos que o cercam.
Geralmente, as crônicas apresentam linguagem simples, espontânea, situada entre a linguagem oral e a literária. Isso contribui também para que o leitor se identifique com o cronista, que acaba se tornando o porta-voz daquele que lê.
O preterido
(Rogério
Gurgel)
Há muitos anos, aproximei-me dele para esclarecer minha dúvida sobre um versículo de são Paulo, no qual o apóstolo menciona o final dos tempos como algo iminente. Sob a penumbra da nave da catedral, o homem baixo e calvo olhou-me por alguns segundos, deixando surgir, acima do cavanhaque, um sorriso enigmático, talvez medindo minha capacidade de compreensão, e por fim me presenteou com uma explicação clara, concisa e, o principal, transparente; uma aula de exegese bíblica, da qual o pensamento de Paulo emergiu com suas idéias impregnadas de escatologia – que o tempo provou estarem erradas.
Tal honestidade intelectual, demonstrada ao não hesitar em negar-se a adequar o texto paulino a objetivos pastorais ou doutrinários, prática comum à maioria dos padres e pastores, foi somente uma das manifestações daquela lucidez intelectual marcada pela austeridade e pela inesperada e surpreendente independência, uma autonomia que jamais o filiou a esta ou aquela corrente.
De fato, ele sempre fez o que considerava certo. Sempre preferiu a atitude por meio da qual a coerência emergisse como o resultado de uma complexa equação, em que ele parecia ponderar sobre três aspectos: a base filosófica do seu raciocínio – agostiniana, em minha opinião –, as conseqüências do seu ato e a experiência intransitiva da fé. E a decisão nascida desse somatório de fatores não buscava apenas salvaguardar uma suposta verdade religiosa, da qual o catolicismo seria o único guardião, mas, principalmente, tornar as pessoas melhores e promover entre elas – para usar uma palavra que ele utilizava incansavelmente – a “koinonia”, ou seja, uma comunhão aprofundada, visceral.
Pessoalmente, considero que a mensagem mais empolgante do texto evangélico, a única que ainda me atrai, é a de que o amor está acima da lei – e foi exatamente esse o sentido que Hamilton Bianchi deu à sua vida. As regras frias jamais submeteram aquele caráter que reunia fina sensibilidade estética, profundo conhecimento teologal, domínio de várias línguas, finíssima ironia e apego apaixonado ao cerne do Evangelho: fazer da vida uma jornada em direção ao próximo.
Vejo-o saindo pela porta dos fundos da matriz, parando alguns passos antes de descer a escada na direção da casa paroquial para acender o cigarro; ou à tarde, debruçado na mesa da biblioteca, ouvindo Mozart e pintando uma estola; ou de olhos fechados durante a homilia, deixando a voz sóbria enfatizar certo ponto primordial...
Na década de 1960, durante a histórica greve da Perus, parte dela ocorrida nos anos iniciais da ditadura, Hamilton – à época, pároco em Cajamar – não temeu expor-se sem quaisquer limites, apoiando o movimento e ousando, naquele período sombrio, contrapor-se ao Estado e ao capital. É certo que as decepções vieram, pois a política será sempre a filha primogênita da mesquinhez, mas Hamilton jamais se furtaria a obedecer sua própria coerência, impregnada de idealismo apostólico e de uma compreensão viva da mensagem evangélica, tão viva que o aproximou da tradição profética.
Inúmeros opositores do golpe militar puderam se esconder da repressão, aguardar uma rota de fuga em relativa segurança e sobreviver graças ao apoio de Hamilton. E todos os que partilharam de sua amizade, ou puderam ouvi-lo em suas homilias, talvez tenham a certeza de que a fé é uma experiência para ser vivida muito além de certa santimônia católica, tão em voga nos dias de hoje.
É estranho, contudo, que tal homem não tenha recebido o bispado. O dossiê de Hamilton certamente repousa esquecido em algum escaninho da cúria romana, deixado ali, por engano, na véspera de uma data festiva, quando a atenção do funcionário encarregado de avaliar o processo concentrou-se unicamente no brilho de uma nova alfaia papal.
(Crônica publicada na edição de 17 de março de 2006 do jornal Bom Dia Jundiaí.)