Sylvia Regina Marin
- Minha sobrinha é uma pérola! – costumava dizer tia Julieta quando me apresentava a seus amigos.
Desde bem pequena, sempre que ouvia essa frase, meu peito inchava. Não sabia o que ela queria dizer exatamente, mas me seduzia o som proparoxítono e rebuscado da palavra "pérola". O brilho nos olhos de titia e seu sorriso carinhoso confirmavam minha suspeita de que ela me considerava uma menina especial. As pessoas me olhavam com admiração e, não raro, faziam comentários do tipo:
- Que amor de criança!
- Como ela é delicada!
- Comporta-se tão bem para a idade!
- Você tem razão, Julieta, ela é uma jóia rara!
O tempo foi passando. (Crianças crescem rápido...) Logo aprendi o significado da palavra que era repetida como um mantra toda vez que uma oportunidade propícia aparecia. E não é que me apaixonei por pérolas? Já adolescente, tinha mania de recortar, das revistas de mamãe, as fotografias de mulheres elegantes que ostentavam lindos colares de pérolas. Grace Kelly e Jacqueline Kennedy foram meus modelos de elegância.
Naquela época, eu não sabia a força que as palavras têm. Hoje, no entanto, quando relembro a fase terrível de minha adolescência, o que me vem à cabeça é exatamente a imagem da pérola enclausurada dentro de uma ostra. Pobre tia Julieta! Jamais a acusaria de ter desejado isso. Aconteceu. Mas a correlação é inevitável. Sorrio quando penso na quantidade de lágrimas que uma menina-moça é capaz de derramar e no desperdício de sofrimento que a faz tão infeliz, nesse período da vida. Comigo não foi diferente. Meus hormônios faziam uma revolução interna que a cabeça não sabia entender. E, ao invés me abrir para o mundo, cada vez mais me fechava em uma concha de introspecção e timidez. Foram anos terríveis, mas já estão distantes.
No tempo certo, amadureci, me casei, tive filhos... Tornei-me, vamos dizer assim, uma pérola cultivada. Não se espantem - tia Julieta continuava a me ver da mesma maneira. Seu olhar amoroso nunca se modificou. Nem mesmo quando, em determinada fase de minha existência, em uma atitude de pura rebeldia, resolvi abandonar a família para morar com os índios, no Alto Xingu. Durante um ano experimentei a liberdade de não ter compromissos burocráticos, de conviver com gente simples, de me alimentar de forma natural. Apesar da falta de conforto, os primeiros meses transcorreram suavemente, como se meu espírito estivesse em conexão total com a natureza. Aos poucos, porém, comecei a sentir falta dos livros, dos programas culturais que sempre amei, cinema, teatro... Tentei formar um grupo de atores na taba, mas os índios não me levavam a sério. Aulas de Português então... nem pensar. E o que eu faria, no meio da selva, com os conhecimentos de inglês e francês que adquirira na escola? Desisti.
Quando voltei, recebi críticas de toda a família, com exceção de tia Julieta, que manteve a coerência com que sempre me tratara. Ao abraçá-la, emocionada, ela sussurrou:
- Querida, não me leve a mal – tenho o maior respeito pelo povo indígena – mas o que você tentou fazer foi dar "pérolas aos porcos"...
Ri gostosamente.
- Ah, minha tia... Você e suas metáforas!
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