DA NATUREZA HUMANA

Sylvia Regina Marin

Fininho está como gosta. Chafurda na lama com uma facilidade, só comparável a de um peixe dentro d´água. Há quem vire o rosto quando o vê assim, nesse estado de imundície total.

- Coisa nojenta! – diria minha mãe.

- Falta-lhe dignidade. – responderia papai.

Fininho não se abala. Sua própria família já está acostumada com o jeitão "desencanado" do patriarca, e não reluta em segui-lo nesse mundo de sujeira que é sua trajetória de vida. Está no sangue – não há jeito. Ele sabe que é alvo de todo tipo de crítica, mas não se importa. Caras feias e narizes tapados não lhe metem medo. Pelo contrário, fazem-no mais forte, mais atento.

Porque será que as pessoas têm tanta necessidade de criticar os seres que as cercam ou julgar suas atitudes? Não seria mais natural que praticassem a aceitação, a tolerância?

Apesar de tudo, Fininho tem um temperamento pacífico. Ontem, no entanto, ele se aborreceu. Estava quieto em seu canto, quando avistou, ao longe, Sr. Chico, que corria atrás de Veruska:

- Venha cá, criatura malcriada, vou prender você com uma corda!

Fininho retesou os músculos na hora. Aquela gritaria histérica não fazia o menor sentido. Só porque Veruska tinha desenrolado um novelo de lã inteiro na varanda da casa... Está certo, ela é um pouco estabanada, mas é tão pequenininha... Não fez por mal. Sofre também com os preconceitos dessa gente sem consideração. Se corre pela casa, reclamam que está fazendo muito barulho; se resolve ficar escondida dentro de um armário, para que não a incomodem, ouve reclamações. E quando observa, fascinada, os peixinhos no aquário - Virgem Maria! - quase lhe arrancam os olhos.

Fininho tem um pouco mais de sorte do que Veruska. Ninguém grita com ele. As censuras que lhe fazem são veladas. E ele aproveita para deitar e rolar no espaço que lhe é destinado na fazenda. Com sua personalidade bonachona, tenho certeza de que, se o porco Fininho soubesse falar, diria para a gatinha Veruska:

- Não ligue para o que as pessoas falam. Elas não têm paciência nem compaixão. São capazes de enumerar todos os defeitos do outro e se esquecem de olhar para dentro de si mesmas. Isto é desagradável, eu sei, mas faz parte da natureza humana.

Abril de 2008


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