Sylvia Regina Marin
Teresa entra no carro enfurecida. Onde é que ela estava com a cabeça quando decidiu seguir os conselhos de Anita? Consegue até prever a reação do marido, quando chegar em casa:
"- Mulher, já não lhe disse para cortar relações com essa doida? Você não sossega... Precisa experimentar todas as maluquices que Anita inventa? Se acha tão bonitinhas as coisas que ela faz, porque não vai morar com ela?"
Não, não vai contar ao Marcos que consultou uma cartomante. Ainda mais, depois do que ela lhe disse. Aí mesmo é que ele vai dar um jeito de impedi-la de ver a amiga. Marcos é seu porto seguro, seu amor; mas Anita - não há como negar - é quem lhe proporciona os momentos mais divertidos da vida... São amigas desde a época de colégio.
Marcos morre de ciúmes. Ele diz que, quando as duas estão juntas, os homens em volta ficam completamente perturbados. Parecem vagalumes, atraídos pelo brilho da luz. E é verdade. Perto delas, ele é um mero acompanhante – poderia ser um vaso de flores ou uma estatueta. Aliás, mesmo que fosse um mico de circo, não seria notado. Para um homem vaidoso como ele, este tipo de situação incomoda bastante.
Não é à toa que, sempre que Anita telefona para combinar um programa de casais, ele "passa mal". Nada sério – uma enxaqueca, uma dor no estômago, uma vertigem – males rapidamente curados assim que Teresa consegue se desvencilhar da amiga com uma desculpa esfarrapada. E essa história de ter de conhecer todos os namorados de Anita então... isto não combina com ele. Não quer saber se o novo "affair" é louro ou moreno, se é gordo ou magro, alto ou baixo – não lhe interessa.
Já Teresa... Fica toda assanhadinha – quer logo saber os detalhes mais íntimos. E não é que Anita conta? Às vezes, Teresa se arrisca a descrever para Marcos um ou outro episódio picante, para incrementar a relação com o marido. Mas, qual o quê, o homem fica ainda mais irritado e só falta chamar Anita de prostituta. Que porre!
Teresa é uma pessoa tolerante. Ama o marido e sabe que todo relacionamento tem seus altos e baixos. "Precisamos ser compreensivos e ter compaixão" – não é o que sua mãe sempre lhe diz? Por isso agüenta o mau humor e, o que é pior, a falta de senso de humor de Marcos. Afinal, quem é que paga seus tratamentos de beleza, as viagens à Europa, as aulas de pintura em cerâmica? Quem lhe faz cafuné no cangote quando vão para a cama? Quem a elogia sempre que compra um vestido novo ou muda o tom do cabelo? Quem lhe deu dois filhos lindos e maravilhosos?
É, mas o fato é que ele fica visivelmente aborrecido quando ela está muito animada. Chato isso. Dá sempre um jeitinho de "cortar o seu barato". Para Marcos, a felicidade de Teresa tem um nome, e esse nome é Anita. Espuma de raiva quando as pega cochichando.
- De que é que vocês tanto riem quando estão juntas? Boa coisa não pode ser...
Teresa pensa nisso tudo enquanto dirige seu carro, do Engenho de Dentro até Laranjeiras. Já está mais calma. Foi até bom ter pegado um trânsito pesado. Pôde refletir e aquietar seu coração. Certas verdades incomodam; mas não é que a danada da cartomante está certa? Suas últimas palavras não lhe saem da cabeça, e ela precisará de muita força para fazer o que é preciso. Ainda bem que pode contar com o apoio de Anita. Uma coisa é certa: não aceitará boicotes nunca mais.
Abril, 2008
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