O PIOR CEGO, Sylvia Regina Marin

Sábado. Duas horas da tarde. Marta enxuga a louça na cozinha automaticamente. Em seus pensamentos, só existem a cama macia, os lençóis recém-trocados, o travesseiro de penas de ganso que o marido lhe deu na véspera. É tudo de que precisa. Após uma semana estressante no escritório, duas noites de vigília à cabeceira da mãe no hospital, e o banho de mar com as crianças nesta manhã de primavera, o corpo já não lhe obedece mais. Cansaço.

Ouve ao longe a voz dos filhos que, com sua energia sem fim, tentam convencer o pai a jogar bola com eles no quintal. Ricardo se mune de toda a paciência do mundo. Precisa colaborar com a esposa, mas suas pernas também se negam a fazer o que o cérebro manda. Tenta negociar:

- Manoela, Rafael, venham cá. Vamos conversar um pouco enquanto a gente faz a digestão do almoço. A bola fica para mais tarde, está bem? Quero saber quais são as últimas novidades da escola.

Manoela logo se empolga. Com seus três anos de pura animação, conta sobre o porquinho da Índia levado por tio Leo, a bertalha que plantou na horta, a aula de capoeira com Mestre Grilo e as pinturas, recortes e colagens feitos com os coleguinhas.

A caminho do quarto, Marta ouve tudo e sorri ao imaginar o brilho nos olhos da filha, feliz por se sentir importante perante o pai.

Rafael é mais quieto. Mas, assim como a irmã, está sempre atento ao que os adultos dizem. Com dez anos de idade, adora questionar os pais sobre os mais diversos assuntos. Ricardo, às vezes, corta um dobrado para responder às complicadas perguntas que o menino lhe faz.

- Papai – chama Rafael – porque o pior cego é o que não quer ver? (Ele ouviu tia Alice falar esta frase ao telefone, depois da aula, e ficou cismado).

- Filho, isto é um provérbio. Ele não se refere exatamente aos cegos. Pelo contrário, diz respeito a pessoas como nós, que temos a visão perfeita.

- Como assim?

Ricardo explica o que é um provérbio, um ditado, uma metáfora, dá diversos exemplos e verifica que Rafael fica satisfeito com a explicação, orgulhoso da sabedoria do pai.

- Mas há uma coisa muito importante à qual você deve sempre dar atenção, Rafael. Na vida, não existem conceitos rígidos. Tudo tem dois lados. Depende do ponto de vista. Vou contar uma história para você.

A esta altura, Marta já está debaixo dos lençóis, com os olhos a pesar. No entanto, ela faz um esforço supremo para ainda não cair nos braços de Morfeu. É que ela adora as histórias que o marido inventa. Apura o ouvido.

- "Há muitos e muitos anos, em um reino longínquo, havia um castelo onde moravam um rei, uma rainha, seus filhos – príncipes e princesas – e seus serviçais. Ao redor dos jardins do palácio, ficavam as casas onde viviam os súditos do reino. Era uma terra linda, cheia de flores, e as pessoas eram tão felizes que você nem pode imaginar. Um belo dia, porém, uma bruxa apareceu na corte e, incomodada com tanta felicidade e harmonia, lançou uma maldição sobre aquela terra abençoada. Para que ficassem impedidos de ver a exuberante beleza à sua volta, os homens, mulheres e crianças se tornariam cegos. A princípio, todos ficaram revoltados com tamanha maldade. Era difícil se conformar. Não saíam mais para passear nos jardins, deixaram de trabalhar, não tomavam banho... O povo começou a feder, as flores murcharam, o alimento rareava. Desse jeito, acabariam todos morrendo. E era exatamente isso que a bruxa queria. O rei viu que era chegada a hora de dar um basta ao desalento. Reuniu seus filhos e súditos e determinou que, daquele momento em diante, cada um teria uma tarefa específica a cumprir para que o reino pudesse ser reerguido. Nada de lamentos ou reclamações. Muito trabalho é o que teriam pela frente, a começar pela aceitação de que todos os outros sentidos – a audição, o olfato, o tato e o paladar – precisariam ser bem desenvolvidos. Era uma questão de treinamento, e o rei estava disposto a recompensar quem mais se esforçasse. Alguns anos se passaram. O povo se adaptou. Os visitantes que ali chegavam, vindos de outros reinos, ficavam admirados de ver como tudo ali era limpo, organizado e belo. Parecia que as flores tinham um perfume mais forte, as comidas eram mais saborosas, as músicas tinham uma sonoridade diferente, e os abraços... ah! eram bem mais calorosos! O rei cumpriu sua promessa e premiou os melhores; mas houve um súdito, um somente, que precisou ser punido. Foi expulso do reino e passou a viver em uma caverna, no alto da montanha. Não aceitava a cegueira e fazia questão de agir como uma vítima. Era incapaz de reconhecer os antigos amigos pelo tom da voz. Ao pegar um tomate e uma maçã, não conseguia distinguir uma coisa da outra. O canto do sabiá não era, para ele, diferente do cacarejar de uma galinha. Toda a ajuda que tentaram lhe dar foi negada. E o rei não teve outra escolha: decretou, em sua sentença final: O pior cego é o que quer ver."

Rafael olha fixamente para Ricardo, enquanto Manoela bate palmas. Em uma fração de segundos, passa-lhe uma idéia pela cabeça. "Será que papai teria uma história convincente para me provar que a pressa pode também não ser inimiga da perfeição? Bem... Vamos deixar isto para outro dia."

No quarto, Marta finalmente pega no sono, com um sorriso nos lábios. Seu último pensamento foi para o marido, um homem que sabe desconstruir o mundo e a faz tão felizzzzzzzzzzzzzzzzzzz................

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