Hoje acordei leve. Dormi um sono gostoso... Lembro que a última coisa que fiz, antes de ir para a cama, foi dedilhar, ao piano, a "Rêve D´Amour", de Lizst. Fez tão bem ao meu espírito... O lençol limpinho, a temperatura amena e meu amado se aconchegando em meus braços foram o complemento para que a mente entrasse em sintonia com a leveza da alma. Peguei no sono rapidamente.
Tive vários sonhos, mas o último deles é que ficou registrado na memória. Eu era uma pluma, que voava sem destino ao sabor do vento. Sobrevoei rios, montanhas, cidades, às vezes ia para a esquerda, às vezes para a direita. Não importava a rota. A sensação de liberdade e a alegria da aventura eram o mais importante. Flocos de nuvens apareciam em meu caminho e eu brincava com eles. O céu azul de outono imprimia uma luminosidade única que me deixava em êxtase. Voei, voei até cansar. E aí acordei – tão leve que parecia ter perdido uns dez quilos durante a noite.
De fato, ao abrir os olhos, tive a impressão de levitar. Que coisa boa! Tomei um banho morno, preparei um caprichado café-da-manhã e folheei o jornal. O anúncio de um programa de balé no Teatro Municipal me chamou a atenção. Aliás, isso é normal. Sou fascinada pelo mundo das sapatilhas. Mas, sabe que a pluma não saía da minha cabeça?
Saí rodopiando pela sala feito uma tonta. Meu amado, com a tolha de banho envolta no corpo, veio rindo pelo corredor:
- Amore mio, o que é isto? Você foi atacada pela síndrome de Copélia? Ou seria Gisele? Julieta? Odete?
- Nada disso. Sou uma pluma dançante. Conceda-me a honra de um "pas-de-deux", meu príncipe.
- Ai, que a toalha vai cair e ainda sou capaz de pisar na pluma...
- Venha, tente... Escaparei dos seus desajeitados pés com a suavidade da minha essência. Entregue-se ao desvario de sua diáfana companheira.
Não deu para escapar. Caímos os dois no chão às gargalhadas. Há muito tempo não ríamos tanto.
Agora, estou aqui, dentro do carro, parada no sinal vermelho, rumo ao trabalho. Cantarolo baixinho, feliz da vida. O trânsito não me incomoda, o motoqueiro que quase arranca o espelho retrovisor do carro não me aborrece, a expectativa de ter de enfrentar a cara amarrada do meu chefe não me estressa. Sabe o que mais? Não vou permitir que invadam meu espaço. Toda vez que alguma coisa pesada tentar se aproximar de mim, vou me visualizar como uma pluma – ágil, escorregadia, veloz. Quero continuar a sentir esta sensação de leveza para sempre.
Será que vou conseguir?
Março de 2008
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