CALO DE ESTIMAÇÃO

Sylvia Regina Marin

- Rodooolfo, me dá mais um beijinho?

- Vem cá, minha gostosa, que eu vou cobrir você de beijos.

- Ai, pára, pára, está fazendo cócegas...

- Tá bem. Parei.

- Não. Continua, fofo. Se eu chegar atrasada ao escritório de novo, digo que tive de ir ao enterro de uma tia.

- Isso é mórbido, Lena. Quantas tias você já matou este mês?

- É mesmo. Melhor eu tomar um banho. Mas chega cedo em casa hoje, amor. Mandei a Zefa fazer sua torta preferida, aquela de damasco com nozes. Tenho umas supresinhas também, mas só à noite.

- Ih! Acho que perdi alguma coisa. Não é meu aniversário... Estamos comemorando algo especial?

- Rodolfo, hoje faz exatamente um mês que não temos nenhuma briga.

- Jura? Nem uma pequena discussão? Tem certeza de que há trinta dias eu não falo mal da sua mãe, nem você xinga meus amigos do futebol?

- Tenho. Marquei no calendário.

- Caramba! Nem percebi...

- Desde a última vez que nos desentendemos, percebi o quanto você era importante na minha vida e que não valia a pena a gente gastar energia com bobagem. Você é o meu homem, meu tesão, meu colírio, meu pote de mel, minha fonte da juventude.

- Ah! Leninha, você é que é meu doce de coco, minha mousse de chocolate, meu sorvete de manga, meu pudim de pão.

- Meu pirulito de framboesa!

- Meu pêssego em calda!

- Minha banana caramelada!

- Meu figo maduro!

- Meu ursinho de pelúcia!

- Minha... meu... meu... meu calo de estimação!

- Epa, calo? Aquela protuberância horrorosa, dura, disforme, que incomoda e dói?

- Não, Leninha, calinho de es-ti-ma-ção, que a gente gosta de acariciar e fazer cafuné, quando lateja.

- Se lateja, não é uma coisa agradável; ainda por cima, é visualmente anti-estético e impede o portador do mesmo de exibi-lo quando vai à praia, por exemplo.

- Lena, nós estávamos brincando, esqueceu? Helloooooo!

- Então você estava brincando? Era tudo de mentirinha? O que você quis dizer com "figo maduro"? Sim, porque, se o figo está maduro, já, já ele cai do pé. Quem sabe estou para dobrar o cabo da boa esperança e nem me dei conta.

- Lê, vamos parar por aqui? E nossa comemoração?

- É assim que você me vê: velha, feia, incômoda. Tem vergonha de mim, não é? Seus amigos devem morrer de rir quando fico em casa vendo televisão enquanto a turminha sai para o futebol, o chope, e sabe-se lá o que mais.

- Minha paciência esgotou. Vai, liga agora para sua mãe e pede para ela vir consolar a filhota, tão mal casada, pobrezinha.

- Não ouse falar da mamãe. Sabia que foi ela que me deu a receita da torta de damasco com nozes que você tanto ama, bobalhão?

- Não sabia, não queria saber e, para ser sincero, tenho muita raiva de quem sabe. E tem mais, não suporto esta torta. Eu disse que gostava para agradar você. Odeio nozes. Damasco me dá azia. Sou chocólatra.

- ...

- Lena, não adianta fazer biquinho, nem chorar. Não ligo.

- Quero morrer... Como sou infeliz!

- Deus do céu! Tudo isso por causa de um calo de estimação que nem existe.

Março de 2008

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