LOUCA FELICIDADE, Sylvia Regina Marin

Acordei deprimida hoje. A vida aqui neste lugar até que não é ruim. Tenho meu quarto, comida na hora certa, um jardim onde passeio ao ar livre, com o sol da manhã a me acariciar a pele. Minhas roupas estão sempre limpas, com um cheirinho de lavanda, e isto me faz recordar os tempos de criança. Como eu era feliz naquela época... Meus pais me cercavam de tanto amor que às vezes eu tinha a impressão de que ia explodir.
Menina curiosa, eu perguntava tudo, queria saber sempre mais, atenta aos menores movimentos dos adultos, dos bichos e até das flores. Aprendi a ler muito cedo, louca de paixão pelos livros, com aquelas figuras imensas e as letras tão pequenas. Aos poucos, conforme ia crescendo, as figuras diminuíam e as letras aumentavam, e eu precisava urgentemente descobrir como tirar um som daquela mistura de vogais, consoantes, acentos, pontos e vírgulas. Já não queria mais que lessem para mim. Tinha de desvendar o grande mistério da alquimia através da qual se era capaz de fabricar palavras. E como foi boa essa descoberta! Com que deleite li meus primeiros romances, interpretei no teatro da escola minhas primeiras heroínas.
Em que ponto desse caminho, no entanto, foi que perdi a lucidez? Não consigo lembrar, por mais que me esforce. Só sei que, de repente, meus pais se foram, me abandonaram sozinha naquela casa cujo jardim não florescia mais. A grama crescia em volta da piscina, com a água imunda e pegajosa. Minha vida se tornou um pesadelo, um martírio do qual nunca mais consegui sair.
Às vezes acordo lúcida, como hoje, e, por conseqüência, deprimida. Sei que a sensação é fugaz. Será que meu velho tio virá me visitar? Seria tão bom podermos conversar normalmente, nos abraçarmos com amor. Irmão de mamãe, com os mesmos olhos azuis profundos, sua presença é um bálsamo. Costuma contar que trabalhou em um circo quando era garoto, que era ventríloquo, mas nunca sei se o que ele conta é verdade. Titio está sempre inventando histórias: ele é engraçado, mas é muito doido.
Que ironia eu dizer isso a respeito dele! Ou será que é exatamente por esse motivo que nos entendemos tão bem? Sabe de uma coisa? Vou fazer uma festa para ele. A enfermeira está se aproximando para me dar a medicação. Vou fingir que tomei e jogo fora depois. Não quero dormir. Preciso organizar tudo. Puxa, como estou feliz! Vou recortar bandeirinhas. Estamos no mês de junho? Não importa. Quero bandeirinhas e pronto. Onde vou achar uma tesoura? Droga, eles escondem tudo nesse lugar maldito. Quero uma tesoura de qualquer maneira. Vou picotar meu vestido vermelho para fazer os enfeites. Titio vai gostar demais. Até vejo seu rosto redondo, bochechas rosadas, sacudindo todo o corpo enquanto ri. Ele vai dançar comigo, vamos rodopiar pelo salão, e todos vão ficar com inveja da minha felicidade. Aqui são todos invejosos, doentes, mal-amados, sujos, nojentos, fedorentos. Vou rir muito quando vir a cara desse pessoal me olhando. Vou dar muitas gargalhadas, até perder o fôlego. E se aquele folgado do Napoleão tentar me bater, não vou tolerar mais esse tipo de agressão.
Hoje vou dormir feliz!


Maio de 2007

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