Sim, meu amigo, amo a vida acima de tudo. Sei que duvidas da minha alardeada
capacidade de me transmutar em diferentes seres. Sofres ao pensar que sou louca,
que as experiências que te narro são fruto de uma alucinada imaginação.
Não te conformas com esta inquietude que admiras mas, ao mesmo tempo, temes.
Teu cuidado me emociona. Faz-me lembrar da menininha que um dia fui e que ainda
trago dentro do peito. Sinto teu constante carinho, como se houvesse sempre uma
mão a acariciar minha cabeça, a me incentivar:
- Vá, querida, corra, descubra novos mundos, não tenha medo, você
é maior do que todas as coisas!
A criança ainda vive no meu coração. Os sofrimentos e as
dores que me levaram à maturidade não tiveram força suficiente
para sufocar a alegria de viver, a fome do contínuo aprendizado, a sede
de um dia achar a fonte da verdadeira felicidade.
Tu bem sabes quantos lugares conheci, quantos homens amei, quantos amigos tenho
feito durante essa busca incessante pela paz da minha alma. Claro, nenhum como
tu, meu querido, sempre atento, por perto, pronto para me amparar nos desvios
do caminho.
Não te atemorizes agora. Acompanhaste todas as aventuras nas quais me joguei
de cabeça. És capaz de te lembrar o número de vezes em que
rimos e choramos juntos? Ou mesmo separados, às vezes a léguas de
distância, mas de alguma forma conectados pela amizade profunda de que tanto
nos orgulhamos. Vivi intensamente aqueles momentos e tu sabes disso. Todos os
prazeres materiais foram por mim experimentados. Em muitas ocasiões, veladamente,
tu davas sinais de desaprovação. Mas eu vivia sempre ocupada demais
para discutir o assunto contigo. Na verdade, ignorava teus sinais.
Porque te inquietas tanto nesse momento? Não vês que a garota inconseqüente
deu lugar a uma mulher equilibrada e sensata? O que te assusta? Acho que tu querias
que eu continuasse única, uma cidadã do mundo. É isso? Não,
meu querido, isto eu já fui, lamento por ti.
Descobri, de alguma forma, que tudo que eu procurava não estava lá
fora, na imensidão do planeta, mas dentro de mim mesma. Percebi que sou
múltipla. E que posso me transformar em outro ser de acordo com a situação
à minha volta. Torno-me invisível quando quero. Tu duvidas, mas
é sério. Consigo viajar para outros lugares sem sair da minha poltrona
favorita, na varanda da casa que finalmente escolhi como pouso para o outono de
minha vida.
Estou feliz, e isso devia te bastar. Minha alma se aquietou. Talvez esta singularidade
me torne menos interessante do que outrora, mas não me importo. Daqui mesmo,
tendo o Cristo Redentor como pano de fundo para a imaginação, vou
a lugares que não conheço, encontro pessoas que nunca vi, e me delicio
em constatar que, sim, a felicidade é possível.
Dezembro de 2007
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