Conheci Michael quando éramos ambos adolescentes, já faz muito
tempo. Eu, brasileira da gema, uma mistura de raças bem balanceada, morena,
exótica para os padrões europeus. Michael, um inglês típico,
louro, alto, de olhos azuis, pele mais branca que a da Branca de Neve. Onde? Florença,
o berço da cultura e da arte italiana.
Apreciávamos o David, de Michelangelo, na Accademia di Belle Arte: Michael,
interessadíssimo nas curvas sinuosas da magnífica escultura em mármore.
Eu, bem, examinava tudo de um modo geral, mas me detinha naquela parte anatômica
protuberante da região inferior pélvica frontal, e me perguntava,
mentalmente, se todos os homens seriam iguais. Neste momento, nos esbarramos.
As pastas que eu carregava com meus desenhos se espalharam pelo chão –
era folha para todo canto – e o rapaz, nervoso, corria de um lado para outro,
a recolher tudo com estardalhaço: “Sorry, sorry!”
Não pude deixar de rir. Minha “vasta” experiência de
vida apontava os ingleses como homens formais, sérios, sofisticados (coisas
de garota que via muitos filmes sobre reis e rainhas). E Michael era o ser mais
desengonçado com quem eu já tinha cruzado até então.
Parecia ter mais pernas e braços do que qualquer outra pessoa. Mal pegava
um desenho, já deixava cair o outro. Nesse balé “aloprado”,
conseguiu juntar, de qualquer maneira, os papéis e me entregou tudo. Confesso
que, embora pudesse tê-lo ajudado, não me mexi. A cena era divertida
demais.
Nossa amizade começou nesse dia, e a mútua paixão pela pintura
foi o ponto de partida para um relacionamento que durou um verão, e a vida
toda. Línguas e culturas diversas não foram empecilho; pelo contrário,
estimularam-nos a ir além, a fazer descobertas. A gente se entendia, mais
ou menos, em italiano. Aprimorávamo-nos a cada dia e, com todos aqueles
braços e pernas de Michael, as mímicas eram inevitáveis.
Pouco a pouco, no entanto, ele começou a me parecer normal. A conversa
fluía e ficávamos horas a falar sobre nossas famílias, nossos
países, os planos para o futuro.
Uma tarde – lembro bem dessa tarde – estávamos sentados em
um banco da Piazza Santa Maria Novella. Nossos olhos se encontraram e ficamos
um tempo parados, sem dizer nada. Foi um momento perturbador. Senti que precisava
contar a Michael um desejo que vinha tomando forma em minha mente havia alguns
dias. Não era possível retroceder. Estava na hora.
- Michael – falei quase sem voz.
- Parla, bambina
- Io voglio vedere tuo pene.
Ele deu um pulo de susto. Era isso mesmo, eu estava decidida. Ia fazer dezesseis
anos dali a alguns dias e ainda não sabia nada, nadinha, sobre os homens.
As únicas partes íntimas que tinha visto eram as de David, ora.
Queria ver o Michael nu para saber se “aquilo” dele era igual ao do
David. Os braços e pernas extras de Michael começaram a aparecer
novamente. Eu estava ficando tonta e gritei nervosa, em português mesmo:
- Pára com isso, vamos lá para casa. Mamãe saiu e vai demorar.
Fomos. Estávamos tão sem jeito... Pude perceber que ele era tão
cru no assunto quanto eu. A gente olhava para o teto, para a parede, para o chão,
menos para onde interessava. De lado, deu para sacar que o tamanho do dito cujo
era o mesmo da estátua, nas suas devidas proporções, é
claro. Afinal, o David tem cinco metros de altura. Liguei o rádio, sintonizei
em uma música romântica e iniciamos umas acrobacias, mas em vão.
Todas as tentativas de acabar com nossa virgindade foram frustradas.
Combinamos de continuar a exploração nos dias seguintes, isto é,
sempre que fosse possível driblar a atenção de mamãe.
A temporada de minha família em Florença ia terminar em duas semanas,
portanto tínhamos pouco tempo. Mas que tempo bem aproveitado... Michael
se revelou, seu instrumento principal dobrou de tamanho, e, juntos, fomos nos
ajeitando, nos encaixando e desabrochamos para o fantástico e perigoso
mundo dos adultos.
Jamais esquecerei aquele verão. Na véspera da partida, Michael teve
uma idéia que me pareceu bem charmosa. Ele ia procurar uma palavra em português
que fosse bonita, vibrante, e me chamaria assim para sempre. Eu faria o mesmo,
mas em inglês. O que importava era a sonoridade e não o sentido da
palavra. Não precisei pensar muito. Ela veio logo à minha cabeça:
Bubble. Não é bonitinha?
Quase na hora da partida, Michael chegou ao aeroporto, esbaforido, vermelho de
excitação. Tinha passado a noite em claro, mas encontrou a palavra
certa. De longe, ele gritava: Fo – ro – bou – dóu. Dei
uma gargalhada. Podia esperar tudo, menos isso.
Nossa amizade continua até hoje. Mas meu apelido, é óbvio,
não pegou. Em compensação, toda vez que as famílias
se encontram, meus filhos me cutucam:
- Mãe, lá vem o Forrobodó!
Janeiro de 2008
Ler os trabalhos do autor publicados no Versos & Acordes
Voltar ao Menu de Contos - Envie seu texto