FORROBODÓ, Sylvia Regina Marin

Conheci Michael quando éramos ambos adolescentes, já faz muito tempo. Eu, brasileira da gema, uma mistura de raças bem balanceada, morena, exótica para os padrões europeus. Michael, um inglês típico, louro, alto, de olhos azuis, pele mais branca que a da Branca de Neve. Onde? Florença, o berço da cultura e da arte italiana.
Apreciávamos o David, de Michelangelo, na Accademia di Belle Arte: Michael, interessadíssimo nas curvas sinuosas da magnífica escultura em mármore. Eu, bem, examinava tudo de um modo geral, mas me detinha naquela parte anatômica protuberante da região inferior pélvica frontal, e me perguntava, mentalmente, se todos os homens seriam iguais. Neste momento, nos esbarramos. As pastas que eu carregava com meus desenhos se espalharam pelo chão – era folha para todo canto – e o rapaz, nervoso, corria de um lado para outro, a recolher tudo com estardalhaço: “Sorry, sorry!”
Não pude deixar de rir. Minha “vasta” experiência de vida apontava os ingleses como homens formais, sérios, sofisticados (coisas de garota que via muitos filmes sobre reis e rainhas). E Michael era o ser mais desengonçado com quem eu já tinha cruzado até então. Parecia ter mais pernas e braços do que qualquer outra pessoa. Mal pegava um desenho, já deixava cair o outro. Nesse balé “aloprado”, conseguiu juntar, de qualquer maneira, os papéis e me entregou tudo. Confesso que, embora pudesse tê-lo ajudado, não me mexi. A cena era divertida demais.
Nossa amizade começou nesse dia, e a mútua paixão pela pintura foi o ponto de partida para um relacionamento que durou um verão, e a vida toda. Línguas e culturas diversas não foram empecilho; pelo contrário, estimularam-nos a ir além, a fazer descobertas. A gente se entendia, mais ou menos, em italiano. Aprimorávamo-nos a cada dia e, com todos aqueles braços e pernas de Michael, as mímicas eram inevitáveis. Pouco a pouco, no entanto, ele começou a me parecer normal. A conversa fluía e ficávamos horas a falar sobre nossas famílias, nossos países, os planos para o futuro.
Uma tarde – lembro bem dessa tarde – estávamos sentados em um banco da Piazza Santa Maria Novella. Nossos olhos se encontraram e ficamos um tempo parados, sem dizer nada. Foi um momento perturbador. Senti que precisava contar a Michael um desejo que vinha tomando forma em minha mente havia alguns dias. Não era possível retroceder. Estava na hora.
- Michael – falei quase sem voz.
- Parla, bambina
- Io voglio vedere tuo pene.
Ele deu um pulo de susto. Era isso mesmo, eu estava decidida. Ia fazer dezesseis anos dali a alguns dias e ainda não sabia nada, nadinha, sobre os homens. As únicas partes íntimas que tinha visto eram as de David, ora. Queria ver o Michael nu para saber se “aquilo” dele era igual ao do David. Os braços e pernas extras de Michael começaram a aparecer novamente. Eu estava ficando tonta e gritei nervosa, em português mesmo:
- Pára com isso, vamos lá para casa. Mamãe saiu e vai demorar.
Fomos. Estávamos tão sem jeito... Pude perceber que ele era tão cru no assunto quanto eu. A gente olhava para o teto, para a parede, para o chão, menos para onde interessava. De lado, deu para sacar que o tamanho do dito cujo era o mesmo da estátua, nas suas devidas proporções, é claro. Afinal, o David tem cinco metros de altura. Liguei o rádio, sintonizei em uma música romântica e iniciamos umas acrobacias, mas em vão. Todas as tentativas de acabar com nossa virgindade foram frustradas.
Combinamos de continuar a exploração nos dias seguintes, isto é, sempre que fosse possível driblar a atenção de mamãe. A temporada de minha família em Florença ia terminar em duas semanas, portanto tínhamos pouco tempo. Mas que tempo bem aproveitado... Michael se revelou, seu instrumento principal dobrou de tamanho, e, juntos, fomos nos ajeitando, nos encaixando e desabrochamos para o fantástico e perigoso mundo dos adultos.
Jamais esquecerei aquele verão. Na véspera da partida, Michael teve uma idéia que me pareceu bem charmosa. Ele ia procurar uma palavra em português que fosse bonita, vibrante, e me chamaria assim para sempre. Eu faria o mesmo, mas em inglês. O que importava era a sonoridade e não o sentido da palavra. Não precisei pensar muito. Ela veio logo à minha cabeça: Bubble. Não é bonitinha?
Quase na hora da partida, Michael chegou ao aeroporto, esbaforido, vermelho de excitação. Tinha passado a noite em claro, mas encontrou a palavra certa. De longe, ele gritava: Fo – ro – bou – dóu. Dei uma gargalhada. Podia esperar tudo, menos isso.
Nossa amizade continua até hoje. Mas meu apelido, é óbvio, não pegou. Em compensação, toda vez que as famílias se encontram, meus filhos me cutucam:
- Mãe, lá vem o Forrobodó!


Janeiro de 2008

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