Saí da floresta amazônica para conhecer o mundo. Estava semi-nua sim, pois minha tribo ainda não conhecia a civilização. Era um domingo e me lembro do espanto com que algumas pessoas me olhavam. A partir de um certo ponto, porém, já não ligavam mais para mim. Havia gente mais bonita do que eu, com menos roupa do que eu, e quantas luzes ...
Cansada, entrei em um navio com destino à Espanha e adormeci. Acordei na segunda-feira em um lugar exótico, touros correndo pelas ruas e monstruosos seres humanos tentando matá-los. O que aliviou minha tensão foi um grupo de dançarinas de cabelos negros, iguais aos meus, vestidas de vermelho e preto, com sapatos que batiam forte no chão e torcendo nas mãos algo que me pareciam cigarras cantando. Que alegre visão!
A multidão me empurrava e eu me deixava levar, sem destino. Pois foi assim que, na terça-feira, cheguei à Cote D´Azur, na Riviera Francesa. Na pequena cidade à beira-mar que me acolheu, fiquei surpresa com a quantidade de pessoas diferentes de mim que andavam de um lado para o outro na Croisette. Vários cartazes mostravam figuras de bichos, monstros, gente, flores ... E os carros alegóricos eram a mais perfeita descrição do deslumbramento.
Pulei, dancei, cantei e, novamente exausta, adormeci entre um africano e um toureiro. No dia seguinte, acordei atônita. O ar estava parado, a alegria – congelada; a luz do sol me ofuscava.
- Onde estou? perguntei a mim mesma.
Só então me dei conta da triste realidade: era quarta-feira de cinzas.
Ler os trabalhos do autor publicados no Versos & Acordes
Voltar ao Menu de Contos - Envie seu texto