MERGULHO, Sylvia Regina Marin

O azul límpido da água sempre o fascinou.
Desde pequeno, Rodrigo ficava horas a contemplar as braçadas elegantes que sua mãe dava naquela piscina. Acompanhava o ritmo batendo palmas, de início. Aos poucos, aprendeu a contar o número de voltas e, mais tarde, já usando um cronômetro, marcava o tempo, incentivando-a a melhorar seu desempenho. Não que Leila tivesse pretensões de competir – ela simplesmente se divertia. Ah, sim! Aproveitava também para modelar o corpo, motivo de inveja das amigas do Country.
Foi Leila quem lhe deu as primeiras lições: mergulhar de olhos abertos, bater perninhas na prancha, boiar no flutuador... A casa dos pais era uma festa: vivia cheia de amigos. Rodrigo, no entanto, se fechava em um mundo particular, que só tinha sentido quando seu corpo se envolvia pela imensidão daquelas águas. A mãe achava que o filho era uma criança extravagante:
- Com essa mania de não sair da piscina, penso que Rodrigo gostaria de ainda estar dentro do útero! dizia ela às gargalhadas.
Ele ficava triste quando ela brincava assim, mas, no fundo, talvez estivesse certa. Dentro d´água ele era feliz: não havia som que o incomodasse, professores a lhe gritar que prestasse atenção, regras e etiquetas a cumprir. Rodrigo era dono do seu tempo, senhor absoluto de seus atos e, de quebra, entrava em êxtase ao ter a pele acariciada pelo toque mágico das pequenas ondulações que o próprio corpo formava.
Às vezes, mãe e filho nadavam juntos, mas esse prazer foi ficando cada vez mais raro. Ele não se lembra quando foi que ela parou definitivamente. Só recorda das dores, dos médicos à cabeceira dela, das injeções de morfina que a deixavam semi-consciente. Tem uma vaga lembrança de que foi nesse período que os treinos na piscina se intensificaram. A seu pedido, o pai contratou um antigo atleta profissional, que o acompanhava todas as manhãs em sua frenética busca pela perfeição. O objetivo de se superar era perseguido de maneira doentia. O treinador o alertava para que não cometesse excessos, mas ele se recusava a escutar.
Na casa, ninguém lhe dava atenção. Nem perceberam quando parou de ir à escola. Corações e mentes se voltavam para Leila, cujas dores destroçavam todos ao seu redor. Em um tempo que ele não sabe definir se longo ou curto, aconteceu o que as pessoas esperavam: antes, com medo; no final, com resignação. Ela se foi.
Exauridos pela batalha perdida, embotados pelo sofrimento, parentes e empregados da casa se esqueceram do rapaz tímido, que não incomodava ninguém, que era como se não existisse. Rodrigo já não nadava mais, se recusava a comer, não tomava banho. Definhava aos poucos. Apagou.
Desse mergulho profundo para dentro de sua alma, tem recordações dos sonhos em que se debatia na piscina para salvar a mãe, dos homens de branco que lhe davam pílulas, do pai, que aparecia aos sábados para visitá-lo.
Hoje está de volta à sua velha casa. Tudo está igual, mas, ao mesmo tempo, tão diferente ... Através da janela do quarto, absorto, contempla a piscina.
O azul límpido da água sempre o fascinou.

Junho de 2007
Sylvia Regina Marin

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