AMORES SIMULTÂNEOS, Sylvia Regina Marin

Era a última vez que Caetano, Lice e Élida percorriam aquela estrada, que os levava do Rio de Janeiro a Arcozelo. Caetano ia ao volante, absorto em seus pensamentos. Aos dezoito anos, quando o presente é o aqui e agora, e o futuro é incerto e longínquo, Caetano, contrariando todos os prognósticos, relembrava o passado. Sabia que uma etapa de sua vida estava encerrada. Não era mais o menino levado, que subia até o galho mais alto da mangueira, soltava pipa com os amigos, corria atrás das galinhas no quintal do vizinho. Era já um homem – assim se sentia – responsável, maduro, pronto para cursar a universidade em Boston e deixar para trás as rebeldias da adolescência.
Lice e Élida, suas irmãs, ao contrário, conversavam sem parar, riam de tudo que viam pelo caminho e não se mostravam aborrecidas com o fato de os pais terem vendido o sítio onde tinham passado todas as férias de suas vidas.
- Essas meninas não têm mesmo nenhuma sensibilidade, que porre! - pensava o rapaz.
Aos poucos, porém, as lembranças iam ficando mais fortes e as vozes das irmãs eram somente um pano de fundo, não incomodavam mais. Lembrou daquele ano em que os primos Paulo e Roberto passaram o verão com eles. Paulo era o mais irreverente dos três e, além de o acompanhar em todas as travessuras que ele inventava, tinha o dom nato de arquitetar brincadeiras mirabolantes. Pois não foi com Paulo que ele, uma vez, se perdeu na mata, onde passaram uma noite inteira com frio e fome, para desespero de toda a família? Sem falar na cobra que quase os abocanhou e na perna quebrada do primo que, para inveja dos demais, passou o resto das férias engessado. Roberto era mais quieto, vivia cercado de livros: “Ilha do Tesouro”, “A Lenda do Rei Arthur”... Por isso mesmo era o xodó dos mais velhos:
- Que menino bem comportado! Vai ser escritor quando crescer!
E o ano em que a fazenda, que ficava do outro lado da estrada, foi comprada pela família do Marcos... Nossa, se com duas irmãs menores, Caetano não tinha sossego, o que dizer de Marcos, que tinha quatro: Helena, Cristina, Sônia e Nanci? Pobrezinho... Foi amizade à primeira vista. Os meninos perceberam, sem precisar dizer nada, a afinidade que os unia.
- Caramba, Marcos é meu amigo até hoje. Somos tão parecidos... Vou sentir sua falta quando estiver nos Estados Unidos.
Banhos no riacho de águas límpidas, acampamentos nas noites estreladas, a caça ao tesouro que tia Sinhá promovia... Porque as coisas boas têm que acabar?
Os solavancos do carro o fizeram voltar à realidade. Estavam quase chegando a Miguel Pereira e as meninas queriam parar para beber alguma coisa.
- Caê, o que terá acontecido com a Sílvia? perguntou Lice.
- Não faço a menor idéia. Porque se lembrou dela agora?
- Porque foi em um dia assim, nublado, que ela chegou a Arcozelo. Lembra que ela foi passar o inverno na casa do avô? Nunca esqueci de como nós implicamos com a pobre Sílvia só porque choveu durante o mês de julho inteiro. A gente dizia que ela tinha trazido a chuva e que só pararia de chover quando ela fosse embora. O pior é que foi exatamente isso que aconteceu.
Caetano voltou a divagar. Como esquecer aquelas férias? Sílvia era uma menina tímida, com longos cabelos castanhos, lisos de dar dó, e uns olhos acinzentados. Ela dizia que seus olhos ficavam verdes quando havia sol, mas isso ninguém pôde comprovar naquela ocasião. Como ficava muito tempo sozinha, um dia, as meninas se juntaram, suas irmãs e as de Marcos, e bateram na porta da casa amarela. Chegaram encharcadas, e Sílvia as fez sentar no chão da sala, perto da lareira. Essa primeira aproximação foi o início de um ritual que, em poucos dias, já tinha incluído os meninos, e que durou as férias todas. Mas não era Sílvia o alvo de tanta atenção. Foi seu avô, o velho Sr. Chico, quem conquistou a admiração da garotada, com hipnóticas interpretações de histórias vividas e inventadas. Quantos caminhos ele abriu na mente daquelas crianças com sua fértil imaginação... Se não fosse a chuva...
Caetano levou um susto. Despertou do devaneio com o toque do celular.
- Alô! Oi, Elisa! Estamos quase chegando. É claro que essas vozes são das minhas irmãs. Que mania você tem de sentir ciúme de tudo! Não, não vou demorar. Só o tempo suficiente para gravar em minha retina a casa branca, os pequenos cantos, as árvores, os lugares que tanto amo. É o meu registro final. Sim, querida, é lógico que eu amo você. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Está bem, volto o mais rápido possível.
Caetano suspirou. Essa Elisa! Também, é tão nova... Quinze aninhos...
- Um dia ela vai entender – pensou ele – que a paixão que sinto por ela é mais forte que tudo, e que esses amores simultâneos – por pessoas, lugares, animais, flores – fazem parte da minha vida – não posso apagá-los. E mais, eles se transformarão com o tempo, mudarão de endereço, de foco, mas sempre existirão. Não é o que dá cor à nossa existência?
Falta pouco agora. Caetano sente um aperto no coração. Queria que a namorada estivesse ali com ele. Abre as janelas, o vento bate em seu rosto e ele grita:
- Eliiiiiiiiiiiiiiiiiiiiisa!

Sylvia Regina Marin

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