Era a última vez que Caetano, Lice e Élida percorriam aquela
estrada, que os levava do Rio de Janeiro a Arcozelo. Caetano ia ao volante, absorto
em seus pensamentos. Aos dezoito anos, quando o presente é o aqui e agora,
e o futuro é incerto e longínquo, Caetano, contrariando todos os
prognósticos, relembrava o passado. Sabia que uma etapa de sua vida estava
encerrada. Não era mais o menino levado, que subia até o galho mais
alto da mangueira, soltava pipa com os amigos, corria atrás das galinhas
no quintal do vizinho. Era já um homem – assim se sentia –
responsável, maduro, pronto para cursar a universidade em Boston e deixar
para trás as rebeldias da adolescência.
Lice e Élida, suas irmãs, ao contrário, conversavam sem parar,
riam de tudo que viam pelo caminho e não se mostravam aborrecidas com o
fato de os pais terem vendido o sítio onde tinham passado todas as férias
de suas vidas.
- Essas meninas não têm mesmo nenhuma sensibilidade, que porre! -
pensava o rapaz.
Aos poucos, porém, as lembranças iam ficando mais fortes e as vozes
das irmãs eram somente um pano de fundo, não incomodavam mais. Lembrou
daquele ano em que os primos Paulo e Roberto passaram o verão com eles.
Paulo era o mais irreverente dos três e, além de o acompanhar em
todas as travessuras que ele inventava, tinha o dom nato de arquitetar brincadeiras
mirabolantes. Pois não foi com Paulo que ele, uma vez, se perdeu na mata,
onde passaram uma noite inteira com frio e fome, para desespero de toda a família?
Sem falar na cobra que quase os abocanhou e na perna quebrada do primo que, para
inveja dos demais, passou o resto das férias engessado. Roberto era mais
quieto, vivia cercado de livros: “Ilha do Tesouro”, “A Lenda
do Rei Arthur”... Por isso mesmo era o xodó dos mais velhos:
- Que menino bem comportado! Vai ser escritor quando crescer!
E o ano em que a fazenda, que ficava do outro lado da estrada, foi comprada pela
família do Marcos... Nossa, se com duas irmãs menores, Caetano não
tinha sossego, o que dizer de Marcos, que tinha quatro: Helena, Cristina, Sônia
e Nanci? Pobrezinho... Foi amizade à primeira vista. Os meninos perceberam,
sem precisar dizer nada, a afinidade que os unia.
- Caramba, Marcos é meu amigo até hoje. Somos tão parecidos...
Vou sentir sua falta quando estiver nos Estados Unidos.
Banhos no riacho de águas límpidas, acampamentos nas noites estreladas,
a caça ao tesouro que tia Sinhá promovia... Porque as coisas boas
têm que acabar?
Os solavancos do carro o fizeram voltar à realidade. Estavam quase chegando
a Miguel Pereira e as meninas queriam parar para beber alguma coisa.
- Caê, o que terá acontecido com a Sílvia? perguntou Lice.
- Não faço a menor idéia. Porque se lembrou dela agora?
- Porque foi em um dia assim, nublado, que ela chegou a Arcozelo. Lembra que ela
foi passar o inverno na casa do avô? Nunca esqueci de como nós implicamos
com a pobre Sílvia só porque choveu durante o mês de julho
inteiro. A gente dizia que ela tinha trazido a chuva e que só pararia de
chover quando ela fosse embora. O pior é que foi exatamente isso que aconteceu.
Caetano voltou a divagar. Como esquecer aquelas férias? Sílvia era
uma menina tímida, com longos cabelos castanhos, lisos de dar dó,
e uns olhos acinzentados. Ela dizia que seus olhos ficavam verdes quando havia
sol, mas isso ninguém pôde comprovar naquela ocasião. Como
ficava muito tempo sozinha, um dia, as meninas se juntaram, suas irmãs
e as de Marcos, e bateram na porta da casa amarela. Chegaram encharcadas, e Sílvia
as fez sentar no chão da sala, perto da lareira. Essa primeira aproximação
foi o início de um ritual que, em poucos dias, já tinha incluído
os meninos, e que durou as férias todas. Mas não era Sílvia
o alvo de tanta atenção. Foi seu avô, o velho Sr. Chico, quem
conquistou a admiração da garotada, com hipnóticas interpretações
de histórias vividas e inventadas. Quantos caminhos ele abriu na mente
daquelas crianças com sua fértil imaginação... Se
não fosse a chuva...
Caetano levou um susto. Despertou do devaneio com o toque do celular.
- Alô! Oi, Elisa! Estamos quase chegando. É claro que essas vozes
são das minhas irmãs. Que mania você tem de sentir ciúme
de tudo! Não, não vou demorar. Só o tempo suficiente para
gravar em minha retina a casa branca, os pequenos cantos, as árvores, os
lugares que tanto amo. É o meu registro final. Sim, querida, é lógico
que eu amo você. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Está
bem, volto o mais rápido possível.
Caetano suspirou. Essa Elisa! Também, é tão nova... Quinze
aninhos...
- Um dia ela vai entender – pensou ele – que a paixão que sinto
por ela é mais forte que tudo, e que esses amores simultâneos –
por pessoas, lugares, animais, flores – fazem parte da minha vida –
não posso apagá-los. E mais, eles se transformarão com o
tempo, mudarão de endereço, de foco, mas sempre existirão.
Não é o que dá cor à nossa existência?
Falta pouco agora. Caetano sente um aperto no coração. Queria que
a namorada estivesse ali com ele. Abre as janelas, o vento bate em seu rosto e
ele grita:
- Eliiiiiiiiiiiiiiiiiiiiisa!
Sylvia Regina Marin
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