Ritinha era muito gulosa e isso tinha suas conseqüências. Adorava
frutas, qualquer tipo de fruta. Principalmente jabuticaba.
Não sossegava enquanto não se empaturrava dos pequenos frutinhos
saborosos e suculentos,
Dona Rita tinha cansado de avisar que não engolisse os caroços;
e Ritinha obedecia fielmente.
Outra fruta que gostava muito era goiaba; tanto da branca quanto da vermelha;
muitas vezes ignorava se tinha ou não os costumeiros bichinhos que iam
parar no estômago da voraz petiz.
Ibitirama estava crescendo e isso significava melhoria da saúde e da educação.
A inauguração de um pronto socorro tinha sido motivo de vários
dias de festa, com a presença do Secretário Estadual de Saúde,
inclusive.
Entre os médicos que começaram a trabalhar no pronto socorro havia
alguns bem famosos, como o doutor Norton Fagundes e o doutor Pedro Elias, lá
de Guaçui.
Havia também uma jovem médica, vinda de Vitória, dona dos
seus vinte quatro anos de idade e zero de experiência.
Impecavelmente vestida, usando um jaleco todo branco, daqueles que são
obtidos com muito anil e muita força nos braços da lavadeira.
Naquela tarde haveria a inauguração oficial do Pronto Socorro e
a doutora estava mais do que nunca, enfeitada e limpa, impecavelmente limpa.
Paralelamente lá em Santa Martha, totalmente alheia aos festejos, Ritinha
dona dos seus seis anos e de um rosto angelical cobertos por um cabelo louro e
com bochechas rosadas, um exemplo raro de beleza e inocência.
Inocência e teimosia, naquele dia fizera a festa. Comera goiaba e jabuticaba
até não poder mais.
Tão empolgada estava que nem reparou nas sementes, devoradas com toda a
sofreguidão possível.
Depois de tal repasto, não deu outra. A barriga começara a doer,
e doer muito.
Dona Rita até que tentou paliar levando ao farmacêutico local mas,
em vão.
Esse então, se lembrou que o Pronto Socorro já tinha sido inaugurado.
Dona Rita, toda envergonhada, pegou a menina e desceu com ela para Ibitirama.
A festa estava animada, com banda de música e tudo mais.
Ao ver Ritinha chorando e gritando de dor, o enfermeiro de plantão querendo
mostrar serviço, mandou dona Rita entrar que a doutora Lenice iria atender
a menina.
O Secretário de Saúde, ao ver a beleza da menina se encantou e,
médico que era, resolveu ajudar a pobre garota.
A doutora, por sua vez, doida para mostrar serviço, se apressou a chamar
a pequena paciente para ser atendida.
Ao saber do motivo da dor, não se fez de rogada; pediu para que a menina
ficasse de quatro e começou, com uma pinça, pacientemente, a tirar
semente por semente o enorme bolo fecal que se formara.
Num certo momento, a montanha começou a dar sinais de desmoronamento, mas
a doutora entre distraída e embevecida pela presença do Secretário
Estadual de Saúde, não percebeu.
Nem o primeiro e nem o segundo aviso.
Não houve o terceiro, a montanha desmoronou e atingiu em cheio a pobre
médica, literalmente enfezada, o jaleco e o rosto principalmente. Alguns
respingos atingiram o curioso e arrependido Secretário que, dizia entre
dentes, nunca mais iria se deixar enganar por uma carinha de anjo.
Como diz o ditado popular: quem vê cara....
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