Ele já tivera muitas mulheres, amara a todas igualmente - cada uma a
seu tempo.
A quatro anos estava sozinho, por opção. Depois do último
relacionamento, decidira que a próxima mulher seria especial. Ela deveria
trazer consigo as melhores características das anteriores. A beleza sensual
da primeira, o bom humor infindável da segunda, a calma prudência
da terceira, o gosto pelo risco da quarta.
Assim como todas as anteriores, a próxima deveria ter gosto pela vida, gostar de vários estilos musicais e ter a capacidade de manter a conversa sem parcimônias com suas opiniões. Ele gostava de mulheres ativas, desenvoltas e de opiniões fortes bem construídas. Saíra com algumas mulheres mas não havia ultrapassado a marca dos beijos mais ardentes, nem com as que se mostraram mais receptivas a seus avanços. Não queria mais só a cama, queria a cama e mesa.
Sua vida ia bem, era um homem de ampla cultura e extremo bom gosto. Não chegava a ser rico mas levava uma vida confortável, que lhe permitia freqüentar bons restaurantes sem esquecer-se do boteco pé-sujo da esquina, onde costumava tomar algumas cervejas atento aos rumores das conversas ao seu redor. Gostava dessa conversa despreocupada, sem os requintes do ambiente profissional a que estava acostumado.
Nos finais de semana, flutuava entre os inúmeros eventos culturais de sua cidade. Não queria arriscar-se a ouvir comentários inoportunos sobre Kranz, Ganons e outros sobrenomes que aprendera a apreciar. Levava uma companhia feminina de vez em quando mas quase sempre ia sozinho. Gostava de ir sozinho.
Sozinho.
Lembrava-se do tempo em que, a simples previsão de ficar sozinho lhe causava
tamanho desespero. Fez da solidão, sua aliada e do silêncio, sua
força. Aprendera sobre os círculos frutíferos da solidão,
descobrira prazeres que até então, desconhecia. Sentia-se satisfeito
com o rumo que sua vida tomara. Era sozinho mas não infeliz.
Hoje pensava que todos deveriam morar um tempo sozinhos antes de começarem a se relacionar com alguém. A vida era nivelada pra cima, seu contato consigo mesmo fora aperfeiçoado ao máximo. Entregara-se à tarefas que lhe causavam prazer que antes seriam eternamente retardadas. A solidão lhe dera poderes que fizeram com que seus dias seguissem tranqüilos. Tudo ia bem, até deparar-se com um vulcão chamado Marina...
Marina. Só de materializar-se em sua mente, todo seu seguro mundo se
desmoronava. Sentia-se atingido por algum terremoto de escalas mais altas que
as padronizadas pela Escala Richter.
Nada mais o satisfazia. Nas refeições faltava-lhe a conversa afiada,
nos eventos sentia falta de um certo olhar inquisidor, na cama sentia frio...
Faltava-lhe o cheiro de Marina.
Como descrevê-la ao certo? Não sabia. Menina, mulher, curiosa, expressiva, generosa. Havia um certo ar de classe que brotava espontâneo. Assim era ela: inquisitiva, inconstante e segura. Dona de uma sensualidade tão íntima que nem parecia aperceber-se dela. Intensa. Devastadora. Feminina. Marina era o sinônimo de vida, reflexo de uma alegria que transbordava em sua gargalhada límpida. Sempre tão segura de si que ele sentia-se culpado ao lado dela. Culpado pelas extremas sensações que ela despertava nele.
Desde então, passara a sair com várias mulheres e trazê-las para sua cama. Buscava Marina em cada uma delas. Não encontrava nem seu reflexo. Sua vida estava de pernas pro ar, descontrolada e insone. A solução era acabar com o fantasma de Marina ou não teria paz.
Tomou coragem e convidou-a para sair mais uma vez - passariam um dia juntos. Levara-a aos piores lugares que conhecia, os mais lúgubres e deprimentes. Descobrira um brilho novo em cada um deles. Não se dava por vencido e resolvera levá-la para jantar num restaurante de comida tão intragável quanto possível e, surpreendera-se como sabor inebriante da carne dura. Sorvera o whisky paraguaio com a mesma ânsia de um apreciador dos melhores vinhos. Esbaldara-se em boates de quinta categria, ao sabor de ritmos jovens de batucadas barulhentas. Rira como nunca. Impressionara-se com a alegria de Marina que enfrentava suas péssimas escolhas como quem experimenta uma nova febre mundial. Quando finalmente chegou a hora de levá-la embora, experimentou a intensa dor do abandono. Decidiu como uma última cartada, levar Marina para sua casa, sua cama.
O cheiro de Marina. A carne de Marina. O gozo pleno de Marina.
Voltara a tranquilidade de seus dias. Frequentava bons restaurantes, participava de inúmeros eventos culturais. Redescobrira a vida.
A seu lado, se via Marina - sua menina, sua mulher.
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