Aquele não seria um dia comum.
Quando Marcos acordou, notou que estava atrasado para o trabalho. A pilha do seu
despertador de cabeceira havia terminado.
Para muitos isso seria um fato comum, que pode acontecer a qualquer um, mas para
ele foi um sinal.
Marcos era do tipo supersticioso. Incapaz de passar por baixo de uma escada, sempre
saia pela porta que entrava, facilmente ele trocava de calçada quando avistava
um gato preto.
Ele levantou-se rapidamente na esperança de recuperar o tempo perdido mas
a sua rotina diária foi implacável. Por mais que se esforçasse
não conseguia agilizar a sua saída de casa. As leis da física
o atrapalhavam em todos os sentidos. Como fazer a água do seu café
ferver mais rápido do que o habitual? Como fazer para tomar banho e passar
a sua roupa ao mesmo tempo?
Aos trancos e barrancos ele finalmente conseguiu se por a caminho do trabalho.
Tinha um bom emprego numa empresa de importação e exportação
e gozava de certas regalias por ser um bom funcionário. Um pequeno atraso
em nada abalaria o seu conceito já que isso nunca havia acontecido nos
cinco anos em que trabalhava ali, mas mesmo assim, Marcos não se sentia
a vontade naquela situação em que se encontrava. Como iria encarar
os seus colegas de setor. Com certeza alguém faria uma piadinha que o deixaria
vermelho de vergonha.
Resolveu pegar um táxi e com isso ganhar alguns preciosos minutos. O motorista
era de poucas palavras e não fez a menor questão em conversar durante
a corrida. Apenas a música do rádio quebrava o silêncio da
viagem.
Na pressa, Marcos não comprou o jornal que sempre lhe fazia companhia no
trajeto de casa para o trabalho. Lamentou o seu esquecimento mas ao mesmo tempo,
notou que o seu pequeno lapso lhe economizou segundos preciosos na sua gincana.
Sem nada para monopolizar sua atenção durante a corrida do táxi,
ele pôs-se à olhar pela janela as cenas do cotidiano. Cenas que rotineiramente
não percebia. Ele apenas ouvia a música suave do rádio e
olhava.
Ao passar por uma praça, viu um grupo de idosos fazendo uma aula de tai
shi shuan. Ele se encantou com a alegria com que aquele grupo de pessoas de terceira
idade se concentrava para acompanhar a professora naqueles gestos delicados e
cheios de vida que mais parecia um ballet. Certamente já havia passado
por aquela praça centenas de vezes mas nunca havia percebido o que se passava
ali.
Ao parar em um sinal, pode ver um animado grupo de estudantes à caminho
do colégio. Em um outro ponto, observou uma feira. Mais à frente
um casal de mendigos. Foi quando seus olhos paralisaram em uma cena que mudaria
a sua vida para sempre.
Ele olhava e não acreditava que nunca havia percebido que aquilo acontecia
todos os dias e ele nunca havia notado antes.
Para fugir do engarrafamento, o motorista do táxi não seguiu o itinerário
do ônibus e desviou sua rota pela orla de Copacabana. Mário ficou
encantado com o que via pela janela do carro.
Claro que Mário conhecia a praia. Ele não era nenhum mineiro em
visita ao Rio de Janeiro que se vislumbra com a imensidão do mar. Jamais
provaria a água para ver se realmente é salgada. Mas aquelas pessoas
em plena segunda feira desfrutando daquela maravilha toda o fez refletir sobre
a vida que levava.
Lembrou-se da sua infância. Do tempo em que o peso na responsabilidade não
lhe pesava nos ombros. Do tempo em que uma simples pipa era o suficiente para
ser feliz.
Das brincadeiras com os amigos que o tempo e as circunstâncias da vida o
havia afastado. Dos seus brinquedos, seu carrinho de rolimã, da sua bicicleta,
nossa, a quanto tempo ele não andava de bicicleta.
Num impulso impensado Mário pediu para o motorista do táxi parar
o carro.
Pagou a corrida, desceu do carro, tirou o paletó, desatou o nó de
sua gravata e começou a andar naquela areia que lhe parecia mais branca
do que nunca.
Ele resolveu que não seria mais escravo dele mesmo. Seus valores morais
e éticos haviam mudado naquele instante. Ele não se transformaria
num rebelde, num relapso, muito menos em um irresponsável, longe disso,
mas mudaria os seus valores daquele momento em diante, aliás, ela já
era outro homem.
Decretou que daquele dia em diante se preocuparia um pouco mais em como viveria
a sua vida. Em como usaria o seu tempo. E principalmente, em como se relacionaria
com as outras pessoas.
Andou a manhã inteira, pouco se importando com os olhares que lhe eram
lançados. Sabia que calça e sapatos não combinam com a paisagem
mas isso não lhe incomodava mais.
Pegou um ônibus e voltou para casa.
No trajeto, tentava se lembrar aonde havia guardado seu velho livrinho de telefones.
Iria ligar para todos seus antigos amigos que há muito não falava.
Reatar suas antigas amizades, ouvir velhas estórias, revisitar seu passado
e reatar toas as antigas amizades que conseguisse.
No dia seguinte quando chegasse ao trabalho explicaria o que aconteceu. Não
inventaria nenhuma estória mirabolante porque mentir não era uma
falha do seu caráter.
Contaria a verdade. Essa continuaria sendo a sua companheira inseparável.
Apenas queria retomar o tempo perdido.
Não aqueles poucos minutos que um par de pilhas velhas o roubou, mas sim,
alguns anos que o cotidiano e as convenções da sociedade os haviam
lhe tirado.
Mário estava certo.
Aquele não seria um dia comum.
Cesar Weber
2007
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