Autoria: Ricardo Sant’Anna Reis, sociólogo e poeta.
Ao se sugerir ao debate o tema "A Excelência da Poesia", a primeira ponderação que se pode fazer é a de que o conceito de excelência não permite mediações. Ao contrario, este se prende à idéia de radicalidade, de raiz, de conteúdo essencial, de abordagem pura, etc.
A poesia, por excelente, é como a religião no que diz respeito ao dever da revelação transcendente (e não pela tarefa da padronização da moral).
A poesia ao (re) inventar o mundo pela síntese funcional entre a emoção/paixão/desejos, e razão/logos/virtude, mostra uma possibilidade crítica ilimitada. Mesmo quando a serviço de sua época, da estruturação moral, da verdade totalizante dos dogmas, como na poesia épica, a liberdade do poeta é extrema (Milton em o Paraíso Perdido).
A poesia se serve da natureza e das emoções e ao transformá-los, em sua narrativa, busca melhor servir ao projeto humano. Através do amor (da busca pela beleza), colocando a racionalidade ao serviço da arte, busca mitigar a dor da solidão, própria à condição humana.
Toda arte é uma abstração; toda abstração é uma idealização, uma dimensão ficcional. Portanto a arte não traduz uma verdade totalizante, mas verdades transitórias do artista. O substrato destas verdades transitórias é a possibilidade de transformar pessoas, de educar para o processo civilizatório, mas de forma não alienada, de forma crítica e verdadeiramente humana.
Os produtos da arte são recortes, opções, ângulos, e devem ter o compromisso com a revelação. Poemas, quadros, esculturas que não buscarem surpreender e revelar, não serão frutos de uma verdadeira arte.
A musica e as outras artes são mais dirigidas ao gosto popular do que a poesia, pois lidam com sentimentos vagos e não se necessita (como condição sine qua non) de preparo intelectual por parte do receptor ou do produtor. Toda forma artística leva a constituição do gosto estético, a uma educação da sensibilidade.
Porem, por exemplo, as artes pictóricas, descritivas ou não, deixam o indivíduo que consome o bem cultural em liberdade para atribuir qualquer entendimento ou sensação a um quadro ou escultura.
As expressões da manifestação artística são peculiares: A escultura deixa de lado o movimento e a cor; a pintura deixa de lado a terceira dimensão e o movimento; a musica abandona tudo que não seja o som; já a poesia baseia-se na palavra e é, portanto a abstração suprema, a mais complexa e completa das artes, onde se ausentam todos os outros aspectos auxiliares, possíveis em outras artes, e não se conserva nada do mundo exterior.
A poesia reconstrói o mundo exterior de forma inteiramente inventiva, sendo a arte que mais dificilmente imita a vida, mais efetivamente idealizadora, e que incorpora o maior trabalho intelectual.
Não é no conteúdo das sensibilidades do artista que está a excelência da arte poética; o artista não se distingue porque sente algo. Distingue-se pelo uso que faz do conceito de sensibilidade. A sensibilidade poética é fruto de exercício intelectual qualificado, onde o criador deve distanciar-se no processo de criação, para buscar o apuro conceitual e técnico e permitir que a obra exteriorize-se. Para tal, usará os recursos técnicos acessíveis aos poetas.
Um trecho musical de sinfonia pode sugerir a alguém a impressão do frescor de primavera; para outro alguém, pode sugerir uma boa lembrança de amor, etc. A poesia é a obra de arte onde se soma a sensibilidade e o instinto do artista, ao pensamento e a inteligência, trabalhando-se o material que a vida apresenta (uma idéia, uma palavra, uma cena, etc) e produzindo algo altamente objetivado e exteriorizado, no sentido de passar a ser um patrimônio cultural.
Deve haver altas doses de racionalidade no processo de criação poética, visando retirar toda a denotação e dimensão prosaica (daí porque que uma poesia confessional será menor), que só se refere e interessa ao indivíduo, projetando a poesia e o seu entendimento como valor universal. Não se pode ler um poema interpretando-o no sentido imediato. Ele tem que ter dimensão figurativa, ressaltar sons, formas, idéias, desejos, transcender o significado próprio das palavras e se abrir a novos sentidos.
O uso da metáfora, a marcação de um ritmo que dá a unidade, é meio retórico próprio a linguagem poética, que possibilitam a dimensão conotativa, sugestiva, que se dirige à emoção do leitor.
Um poema, como toda arte, é uma obra aberta, de certa maneira.
As figuras de linguagem são recursos usados pelos poetas para provocar a poeticidade em seus poemas. Elas podem ser a anáfora (repetição), anástrofe (inversão da ordem sintática), aliteração (seqüência de fonemas), assonância (seqüência de sons), etc. São inúmeros os recursos que possibilitam a distinção da linguagem conotativa poética, para a linguagem denotativa da prosa.
Embora nem tudo no poema seja revelação (por vezes é insinuação, por vezes, ausência simbólica), sempre se deve ter presente a dimensão significativa e significante, ou seja, a dimensão conceitual. Um poema não deve ser um mero esforço pelo entretenimento ou um jogo de palavras como vê em alguns produtores contemporâneos.
Poesia é uma abordagem revolucionária (ou profética), por serem os poetas tidos como entes de ligação entre a vida humana, suas impressões e dores, seus erros, e a idealização da perfeição do Cosmo. Este Religare se fará pela narrativa poética, por não ser uma descrição naturalista e prosaica da sensoralidade objetivada.
A narrativa poética preserva o mistério, e nisto reside a poeticidade de um texto e a capacidade de comover, promovendo a transformação da realidade. Constrói a linguagem garantindo a conotação do sentido, através dos recursos de estilo, da sonoridade, ritmo, rima, repetição, da experimentação de novas associações entre palavras, etc.
Os recursos técnicos da arte poética permitem que esta seja um poderoso instrumento de formação de consciência cósmica, de transcendência do homem frente à prisão das necessidades.
O amor surge na poesia como metáfora de um mundo melhor, da busca pela beleza. Por amor, considere-se a manifestação dos afetos, entendidos psicanaliticamente, onde a gradiente dos sentimentos pode se expressar. Evidentemente, a poesia tem uma forte dimensão de auto-analise, de trato terapêutico. Em si, é também um olhar para o interior da alma humana, contraditória, diversa, sublime, etc.
Esta busca pelo sentido, pela expressão mais adequada para o processo de criação (a poesia como musica em Mallarmé, a desconstrução da palavra nos irmãos Campos, a poesia sem sangue, seca, sem metáforas de João Cabral, etc), chega a varias opções ficcionais possíveis, mas sempre geradoras de novas formas de expressão.
Os que rejeitam a metáfora na poesia, os que buscam retirar da poesia os sentimentos humanos, acabam por criar novos signos de expressão poética. Neste sentido, a polêmica sobre a arte moderna, a explosão dadaísta do conceito, permanece até hoje. Havia validade à época, egressos que estávamos do "beletrismo", das formas harmônicas renascentistas, etc. Hoje, recupera-se o debate sobre a necessidade de reincorporar o logos ao processo da arte. Ao pretenderem romper com a tradição estética, serviram para a renovação do discurso, para a busca de sentido na poesia, sua maior angustia.
Se a vanguarda estética se esgotou, enquanto experimentação, porque não revisitar as antigas experiências e tradições? A métrica, a prosódia, a metáfora, a rima, podem ser recuperadas por uma abordagem contemporânea. E vivas de novo a Olavo Bilac. Porque não?
Hoje, o fenômeno da poesia contemporânea sofre a contaminação da dimensão geracional pós-moderna, do esvaziamento frente aos valores que balizavam historicamente esta busca de sentido para a arte e para a convivência humana. Vive-se sob o signo da mutação e expressando a perplexidade pela falta de utopias validas.
Muito do que se chama de poesia, hodiernamente, não é mais do que necessidade de expressão comportamental de segmentos médios, socialmente esvaziados, humilhados e intelectualmente excluídos.
Este fenômeno fala sobre a necessidade de convívio, de minimizar a violência urbana, da necessidade de uma revolução no processo educacional brasileiro, do que do verdadeiro processo de produção de arte poética. Vê-se por aí, "poesia" misturada com cocaína, com cerveja ou quaisquer outros aditivos da percepção, não por uma investigação onírica, como a feita por Baudelaire, mas expressando decadência e busca ao entretenimento. É um equivoco, penso.
A poesia, ela própria deve ser capaz de inebriar o poeta e os leitores, de tirá-los da alienação sensorial e lançá-los ao desafio de mudar o mundo. A poesia pode e deve prescindir de deus, de religião, de dinheiro, de drogas, como no poemeto-sintese de Claudia Alencar: "não faço poesia para ganhar dinheiro; faço-a para ganhar alma".
A poesia tem que ser uma condição irrecorrível para o poeta, quase como o respirar. É parte constitutiva e inerente ao ser humano, a capacidade criativa. Como um monstro que devora os próprios filhos, a sociedade anula a possibilidade de intervenção individual, restringindo-a a níveis lógicos para que não perturbem a reprodução do sistema.
Uma pessoa que não desenvolveu o dom de criar, por força da desconstituição do individuo em sociedade, como previu Jean Jacques Rousseau, pode ter a capacidade de apreciar poemas. O que lhe falta, como castração da libido onírica, lhe sugere o interesse.
Nada pode impedir que a poesia surja como uma necessidade atávica, como um pescador, desembarcado, sente sempre falta da maresia em seu rosto. Por serem capazes de romper com a castração, capazes de expressão criativa, os poetas exercem fascínio sobre as outras pessoas, que se consideram, no geral, incapazes de criar.
A procura da Excelência da Poesia nos obriga ao raciocínio conceitual, litero-científico. Em sua teoria estética, Fernando Pessoa apresenta as três leis da forma abstrata (arte):
A primeira lei é a necessidade de que a obra de arte apresente UNIDADE. Quaisquer de suas partes-versos deve contribuir para o deslinde do sentido final, para uma impressão total definida. Há uma integração dialética entre o Todo e a Parte, onde o Todo se apresenta como síntese da determinação destas partes.
Se a arte imita a vida, não o faz em sua plasticidade imediata, visível.
Na verdade a arte imita o processo da vida, onde a virtualidade animal é a de que todas as coisas tem uma contribuição circunscrita e focada para o funcionamento do corpo natural.
A angustia do artista, o "parla" de Pigmalião, explica-se pela incorporação da dor, pela percepção do limite que a proximidade da morte trás. Por ser impossível alcançar a perfeição encontrada na natureza, imita-se o processo natural e recria-se uma segunda natureza, que é a cultura humana, onde a arte é a essência que movimenta a evolução da humanidade.
A segunda lei é a da UNIVERSALIDADE/GENERALIDADE, como capacidade de falar para todos os que tenham um preparo intelectual determinado, seja em Lisboa ou no Rio de Janeiro, seja em Tóquio ou em Adis-Abeba, por ater-se a valores essencialmente humanos e universais, e que perpassam todos os tempos.
O que Shakespeare destaca em Rei Lear, não é a demência senil do rei, mas a duvida de um homem sobre o amor que lhe devotam as filhas, e a nulidade da riqueza para garantir-lhe este amor. Este é o valor humano permanente, que pode ser entendido em qualquer lugar do mundo.
Esta universalidade fala a favor da capacidade comunicativa da poesia. Quem aprecia um poema, não deve angustiar-se para decifrar signos iniciáticos, referencias eruditas obscuras, etc. A poesia não pode almejar permanecer como posse de poucos, pois é libertadora.
A poesia é pensamento qualificado e não um exercício de obviedades pueris ou de um falso hermetismo acessível só a um circulo fechado de egocêntricos, como é comum se vê hoje em dia. É deprimente e constrangedor perceber as loas publicas e a institucionalização de uma poesia carregada de opacidade. Isto dá bem a medida de nosso colonialismo cultural. Quem não entende e se enternece pela poesia de Bandeira "...imagino a Irene entrando no céu. Dá licença, meu branco..". A poesia deve ser instrumento civilizatório, de educação da sensibilidade das massas, tanto quanto o possível.
Por ser a mais antiga das ocupações intelectuais, através da qual o homem contou, primeiramente, os seus delírios e alumbramentos, relatou aventuras, organizou sentimentos e desenvolveu a arte de amar, a poesia possibilitou ao homem adquirir humanidade.
São posteriores à existência da arte poética, a filosofia, a política e a sistematização do conhecimento científico, que, em última instancia, visam o domínio da natureza. A poesia não visa domínio, e sim liberação. Essencialmente dialético-crítica, não cabe no discurso acadêmico, apropriado como linguagem de classe, que enquadra, classifica e mata a vida pulsante na arte.
O aprendizado da poesia nada tem a ver com cátedras. A linguagem poética deve instigar e aproximar as pessoas torná-las exigentes. Por isto os poetas foram expulsos da República de Platão. Está na hora de que voltem para as Ágoras, para as escolas, para o exercício de sua função civilizatória.
A poesia, portanto, "humaniza o homem". Um artista não exprime as suas emoções, que apenas serão entendidas por ele. Ele exprime o que em suas emoções "é comum aos outros homens". Isto é a Universalidade na poesia. Sobre a dimensão temporal, se dirá, como Goethe: "Um homem de gênio só é de sua geração por seus defeitos".
A terceira lei 3ª lei é a da LIMITAÇÂO, onde cada recurso estético busca evitar o transbordo, busca a mesura e o alcance do Maximo de concisão e efetividade. A idéia de perfeição não pode ser (a aí se evidencia o caráter revolucionário da linguagem poética) como a expressão da idéia perfeita emanada de deus (como no ideal platônico), mas algo que se aproxima do artista pela contemplação errática (posto que humana) da natureza, onde vários fatores vão incidir para o resultado final, principalmente o acaso.
A poesia é a porta de entrada para um mundo de percepções ultra-humanas, ficcionais ou não, que deixa a arte e a invenção como substrato; não paga tributo a nenhuma moral.
Devemos cultuar os deuses da poesia, que nada nos cobram, a não ser a coragem de que nos lancemos ao abismo do lírico, e sem rede.
Esta é a diferença entre poetas e não-poetas: O prazer e a coragem de se atirar ao vento. Por ultimo, a poesia não pode ser reduzida a pensamentos gentis e benfazejos, a manifestações de apreço como no poema de Bandeira, porque reflete sentimentos humanos e incorpora arte e liberdade, enquanto elaboração criativa e conceitual. A Poesia supõe dor e incomodo, parteiros da verdadeira arte, como uma vez nos ensinou a "bruja" Clarice Lispector.
Texto produzido para o evento "Te encontro na APPERJ,13 de abril de 2009 , tema: " A excelência da Poesia - "GRUPO DE HUMANIZAÇÃO POÉTICA: Juçara R. V. Valverde e Ricardo Sant’AnnaReis.
Contato: JV: 21 99555835, e-mail:
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